Ultimamente tenho pensando muito na ubiquidade e nas suas consequências para a vida (minha e dos outros). Para quem não sabe, ubiquidade é a chamada capacidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Atente-se, é diferente de onipresença (que é estar em todos os lugares ao mesmo tempo). Esta capacidade foi potencializada e eu diria até que só seria possível através da internet. Não sei, dada a minha experiência própria, acredito ser possível apontar causa, sintoma e até mesmo tratamento para este fenômeno da vida além da vida:
Causa
Cada pessoa está na rede mundial de computadores por motivos diversos, sendo quase impossível (creio eu) delinear fatores de convergência neste mundo paralelo. Em se tratando de redes sociais, conheço muitas pessoas que se aventuram nestas comunidades virtuais por um vírus chamado solidão. Aristóteles já dizia que o “homem é um animal social” e muitas vezes, apesar de estar envolvido em várias microssociedades, não encontra nelas a completude que busca para sua realização pessoal. Muitas vezes as pessoas estão falando comigo (sei que é falta de educação) e ao mesmo tempo estou conferindo os tweets ou checando o e-mail no celular. Não é uma solidão relativa a ausência de pessoas, mas uma solidão gerada por um sentimento de querer as coisas de um jeito e não ter.
Sintomas
Você tenta se dedicar aos estudos, à leitura, a uma atividade física, mas não consegue passar muito tempo sem estar conectado. As pessoas já não dizem “nossa, como você está sumido” ou “senti a sua falta” porque elas sabem tudo o que você faz e pretende fazer. Se você passa muito tempo longe das redes sociais, teme que não seja mais querido, que não seja mais tão popular. Do alto de sua vaidade acha que vão sentir falta de suas palavras de sabedoria e de seu jeito trapalhão/espiritualizado de ser.
Na maioria das vezes as pessoas estranham quanto te encontram pessoalmente, pois, depois das redes sociais você, sem perceber, passou a ter duas personalidades – passou a ter um alter ego silencioso. Um sintoma muito comum é ficar meio caladão nas conversas e ser tido como tímido ou antissocial. No entanto, tudo o que você queria era estar lá, com a sua galera virtual. O problema é quando a solidão do mundo real passa para o mundo virtual. Daí pra frente suas vidas (a real e a virtual) passam a refletir uma terceira (e original) solidão – esta que deu origem a todas as outras – que é a solidão interior. Você se sente abatido, se sente desmotivado, se sente sedento de algo que nenhuma das vidas pode criar por si.
Tratamento
Diante de tanta solidão: a interior, a real e a virtual, passamos a entender que a “doença” deve ser curada na origem. Quando o vírus da solidão interior é atenuado, passamos a prestar atenção nas pessoas e nas suas necessidades. Ao preocuparmo-nos com as necessidades do outro eliminamos a segunda solidão que aflige o homem moderno. A partir daí você não tem necessidade de uma terceira vida. As redes sociais não podem ser forma de sublimação ou construir um mundo ideal. É aquela velha história, o drogado (não se assustem. É só um exemplo, não uma comparação) só consegue sair de sua condição quando se conscientiza de que é um dependente químico e de que precisa de ajuda. Este é o primeiro passo para o tratamento do que eu poderia chamar de “dependência cibersocial”. Um bom conselho para quem é adepto da “medicina alternativa” é tentar certos períodos de abstinência virtual. Tal método é interessante por ser uma busca por equilíbrio – ideal para todas as áreas da vida. Assim a internet passa a ser um instrumento para encontrar amigos de forma normal (não 24 horas por dia), de ler as notícias do dia (não saber de tudo que acontece com todo mundo) e de acrescentar algo à vida das pessoas sem sair de casa (sem querer salvar o mundo pelas teclas do teclado). Desta maneira você preserva o frescor de sua “imagem virtual” e se livra de uma vez por todas do estigma de ser um nerd antissocial.
Em resumo:
Causa: Solidão;
Sintomas: Não conseguir ficar longe do “mundo virtual”;
Tratamento: fazer algo pelo próximo e abstinência;




