Estamos em 2012 e o mundo ainda não acabou. Resolvi postar algumas manchetes que, pelo andar da carruagem, não se realizarão antes do fim. Ainda que você seja adepto do adágio “sou brasileiro e não desisto nunca”, vai perceber que a mídia não gosta desse tipo de manchete. Portanto, ainda que um dia alguma dessas coisas se realize, é muito provável que estas sejam legítimas notícias do tipo “você nunca lerá num jornal”:
Foi inaugurada hoje pela manhã em nossa cidade a maior biblioteca para cegos do mundo
Quantas bibliotecas especializadas em literatura BRAILLE você conhece? Quantas possuem um acervo tão significativo que existem por si só (sem ser um setor de uma grande biblioteca)? Essa notícia é tão fantasiosa no contexto brasileiro que deve passar quase remotamente pela cabeça de um cego sonhador. Aliás, você ao menos sabia que os cegos leem e que já em 1957 já existiam 100 mil volumes em Braille somente na Inglaterra? Este país fundou sua biblioteca nacional para cegos em 1882; os Estados Unidos, pouco depois; A Alemanha em 1894. Estamos em 2012…cadê a do Brasil?
Há cada vez mais candidatos ao curso de biblioteconomia por conta de lei do governo
Dizem as más línguas que foi aprovada em 2010 um tal Lei 1.244 que determina que toda escola tenha um acervo de livros nas bibliotecas de pelo menos um título por aluno matriculado. Segundo Amanda Cieglinski, seria necessário construir 25 bibliotecas por dia até 2020, prazo limite para adequação à medida. Bom, além da chegada da Luiza, alguém ouviu falar de inauguração de bibliotecas por aí? Parece que é mais uma lei para inglês ver. Uma pena…
Projeto de lei pretende instituir imposto para bibliotecas
Existe imposto para tudo nesse país. Para piorar a situação, anteontem saiu uma pesquisa que revela que “Brasileiros estão entre os que menos obtêm retorno por impostos pagos“. O que seria de um imposto ou de uma parcela do orçamento destinada só para o desenvolvimento de bibliotecas é um verdadeiro mistério. Digo isso porque para que um projeto desses chegasse a ser aprovado, primeiro deveria haver uma completa metanoia na política brasileira. O fato é que esse imposto já existe em outros países e tem dado muito certo. Ver novas e boas bibliotecas é um investimento de fortíssimo apelo para o conceito geral dos eleitores. O problema (e essa é a desculpa para tudo no Brasil) é que não temos saúde, segurança e educação de qualidade; Logo, nada de bibliotecas. Afinal, elas não são prioridade.
Bibliotecas itinerantes chegam a zonas rurais do estado
Por que as cidades estão tão inchadas? Simplesmente porque não existe tratamento igualitário entre cidade e campo. Apesar de o termo igualitário ser equivocado na relação campo x cidade (porque as necessidades são diferentes), uso-o para enfatizar que há um lado mais pesado na balança. Ao contrário do que se pensa, o campo também precisa de cultura, educação, lazer e, porque não, bibliotecas! Levar livros técnicos para as zonas rurais, especialmente num país essencialmente agroexportador como o Brasil, é tudo menos desperdício de dinheiro. O problema é que os políticos querem balança comercial favorável sem investir na capacitação do setor aí o que acontece? Tem que importar profissionais, maquinário, semente, etc. Daí você me contesta: “ah, mas existe a EMBRAPA…”. Se os resultados produzidos pela EMBRAPA chegassem a todos os pequenos produtores do Brasil, certamente não teríamos tantas favelas nas capitais.
Doações de livros a bibliotecas aumentam 150% após propaganda televisiva do Governo Federal
Imagine só a nossa que-ri-da presidenta Dilminha indo às redes nacionais dizer aos brasileiros (e as brasileirAS) que vale a pena ler e que ela própria “é capaz de devorar um livro de 500 páginas em um fim de semana” (veja aqui)…Na minha opinião essa seria uma excelente propaganda no sentido mais fiel da palavra. Uma propaganda despida de “eu fiz isso”, “eu fiz aquilo” como essa, tão comum no governo Lula, poderia dar um novo tom ao Governo Dilma. Outro exercício imaginativo seria a presidenta lançando nessa mesma propaganda a campanha “Ignorância Zero”, com o objetivo de incentivar as doações de livros e recursos para bibliotecas do país. Existe um livro lançado pelo bibliotecário indiano Ranganathan chamado “As cinco leis da biblioteconomia”. A segunda lei prega justamente “livros para todos”. Tenho certeza de que se Dilma, exímia leitora, tivesse a curiosidade de conhecer os gritos proféticos desse indiano que viveu no começo do século passado, hoje o Brasil seria sim um “País de todos”.
Lançado Catálogo Nacional de Bibliotecas (CNB), que pretende unificar os registros de todos os livros do país
Um catálogo nacional de bibliotecas é muito mais que um mapa estatístico de bibliotecas. É antes de tudo uma maneira inteligente de gerenciar os recursos bibliográficos. O cadastro pode ser o primeiro passo para uma rede nacional. Imagine a possibilidade de você encontrar o enderenço e o telefone daquele livro raríssimo para a sua tese de mestrado dentro do território nacional (E de graça!). Imagine ainda a possibilidade de poder solicitar o empréstimo desse livro e recebê-lo em casa. Isso, meus amigos não é sonho nem imaginação no planeta terra: diversos países já implantaram redes nacionais. E saber quantas bibliotecas existe no país pode ser uma oportunidade de o governo descobrir o quanto estamos atrasados em termos de bibliotecas. Boa novas: essa notícia pode se concretizar em pouco tempo. A Biblioteca Nacional já iniciou o cadastro das bibliotecas em seu site. Por enquanto vamos incluir tal manchete entre aquelas que talvez você nunca chegue a ver num jornal. No Brasil somos obrigados a contrariar o ensinamento a Tomé: “só acredito vendo”.
Especialistas mostram que investimentos em escolas e bibliotecas geram economia de milhões a longo prazo
Sério, é preciso mesmo que um especialista faça um estudo prognóstico a respeito disso? Da revista época (07/12/2010)
“Há 60 anos a Coreia do Sul tinha altos índices de analfabetismo e quase metade das crianças e jovens fora da escola. Eles instauraram uma reforma educacional há 40 anos, apostando na leitura como base. Bibliotecas exclusivas para crianças, financiadas por empresas e fundações, tomaram conta de Seul. Uma das maiores redes, a Crianças e Bibliotecas, surgiu da iniciativa de um grupo de mães, preocupadas com o futuro dos filhos. Em 2006, a Coreia tomou da Finlândia o primeiro lugar em leitura no Pisa.”
Brasil é líder latino-americano em publicação de livros digitais
Nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e Austrália, para citar os que conheço, já existem diversas bibliotecas emprestando e-books para seus usuários. O livro digital “pegou” nesses países por motivos como preço acessível, variedade de títulos, mobilidade, peso, etc. Só o fator preço acessível já seria motivo suficiente para que o Governo Federal se empenhasse com todas as forças para que essa onda de e-books realmente “pegasse”. Outro fator importante é que o brasileiro está super acostumado a ler coisas pelos celulares e aparelhos eletrônicos. Recentemente, de acordo com a ANATEL, contatou-se que “na média, Brasil já tem mais de um celular por pessoa”. Antigamente, com o livro impresso, isso seria difícil por conta do espaço físico, mas imagine só se chegássemos ao patamar de um livro por pessoa no Brasil? Por enquanto quase ninguém tem e-reader e as editoras daqui continuam receosas quanto ao lançamento de livros digitais. Pena ter que acreditar que essa, como muitas questões no Brasil, continue com um delay de 100 anos em relação a outros países do mundo.






Quando falam que o brasileiro lê tantos livros por ano, tem uns dois ou trÊs que estão descansando os olhinhos, pois eu leio pelo menos dois POR MÊS! Gosto demais de ler e gostaria muito de ter uma biblioteca circulante aqui perto (Perdizes). Se os malandros soubessem como é bom ler, dariam traço para os BBBs da vida …
Sobre os cegos, se o Brasil tivesse aprendido com D. Pedro II teríamos, talvez, uma das mais bem aparelhadas nações em se falando de educação para cegos. Afinal, se o ano de 1854 foi o marco da implantação do Sistema Braille na França – A Instituição Real dos Jovens Cegos, onde o Sistema Braille foi concebido e aperfeiçoado, demorou 25 anos a aceitá-lo de maneira definitiva, na mesma França – também o foi no Brasil, pois, a data de 1854 pode ser considerada como o ponto de partida da difusão do Sistema Braille fora da França. Nesse ano foi levada a cabo, na Instituição Real dos Jovens Cegos, a impressão de um método de leitura em língua portuguesa, registado no Museu Valentin Haüy com o nº 1439.
Acontece que um rapaz cego, José Álvares de Azevedo, regressou ao Brasil depois de ter estudado durante seis anos em Paris. O Dr. Xavier Sigaud, médico francês que esteve ao serviço da corte imperial brasileira e pai de uma filha cega, Adélia Sigaud, conheceu-o e apresentou-o ao Imperador D. Pedro II, conseguindo despertar o seu interesse para a possibilidade de educar os cegos. O Dr. Xavier Sigaud foi o primeiro diretor do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant, inaugurado no Rio de Janeiro em 17 de Setembro de 1854.
A maior injustiça que o Brasil cometeu em sua história foi desdenhar Pedro II, um ser inteligente, dinâmico e crente na evolução humana e sua predisposição a inventar e criar.