Encontrei esse texto super interessante no site Got medieval que faz uma brilhante ligação entre os manuscritos góticos medievais e o joguinho Super Mario World. Eu sempre amei jogar Mario no Supernintendo. Para mim é um verdadeiro clássico. Acho uma pena que as crianças de hoje só queiram saber de Counter Strike e GTA. Depois de ler este texto eu pensei: será que os projetistas japoneses se inspiraram realmente na lógica dos manuscritos medievais? Eu não duvidaria. Os pontos levantados nesse texto são bem curiosos e esclarecedores:
Considere a seguinte imagem retirada da margem inferior do manuscrito 264, folheto 17, da Biblioteca Bodleiana (Bodleian Library):
Espero que você tenha notado que a elegante figura abigodada de vermelho entre o cão de caça e sua presa saltitante não está no manuscrito original. Mas imagine por um momento que o personagem Mario (criado por volta de 1990) tenha sido colocado numa máquina do tempo e emergiu na página de um manuscrito medieval do ano 1290. Se olharmos atentamente para o modo como o artista medieval organiza sua página, descobriremos que Mario se encaixaria muito bem nela. Na verdade eu defendo que o mundo imaginário das páginas góticas luxuosamente ilustradas seguem muitas das mesmas regras que o lateralmente rolante Mario 8 bites.
Neste post, eu só vou me focar em uma dessas regras, sendo esta a maior de todas: gravidade. As páginas de manuscritos luxuosamente ilustradas foram pintadas de modo que, justamente por estarem sujeitas à força da gravidade, é como se elas fossem sugadas pelos espaços abertos da margem inferior. Consequentemente, você quase não vê figuras lançadas ao meio dos espaços vazios. Homens, mulheres e animais localizam-se sobre as bordas decorativas da parte inferior ou andando sobre estas bordas – como pode-se ver acima Mario e seu amigo coelho. Porém, se eles se afastarem muito das margens ou das bordas, provavelmente necessitarão de algum auxílio. Normalmente este auxílio toma a forma de pedaços de terra, como esses que podem ser vistos sob os pés das figuras abaixo:
Para impedir que o homem com sua cabra ao centro caia diretamente para o fundo da página, o artista desenhou pequenos pedaços de terra sob eles. Mario, acostumado a plataformas que são sustentadas no ar como se aparafusadas ao fundo, sentir-se-ia em casa com essa disposição e vice versa:
E não é apenas como se os montinhos de grama estivessem ligados à página atrás deles. Se voltarmos o foco à imagem inicial, poderemos ver Mario, o coelho e o cão de caça suspensos sobre a inicial capitular que serve de borda-plataforma, assim como os montinhos de grama do saltério ormesbiano e os blocos interrogativos do Reino dos Cogumelos. Nenhum desses suportes são puxados pela força da gravidade.
[Abrindo mais a página do manuscrito, podemos ver que] Se o coelho quiser escapar do cão de caça, ele terá que ir pela direção contrária e seguir Mario rumo à capitular e rezar para que o cão de caça não seja muito ágil. Nesse caso, ele provavelmente teria que apoiar-se nas folhas rumo ao centro da margem dessa maneira:
Se você olhar cuidadosamente, perceberá que as duas capitulares iniciais estão separadas, de modo que elas não se tocam. As capitulares mais acima configuram-se como suportes para duas bordas em forma de vinha: uma subindo e outra descendo em direção à capitular inferior. E as vinhas enroladas proporcionam ponto de apoio para pequenos pássaros no topo delas.
Se ocorrer de o cão de caça poder escalar também, o coelho ainda poderia ser capaz de escapar se convencesse Mario a soltar uma de suas preciosas folhas de carvalho nele.
Criaturas voadoras podem ascender pelo espaço em branco das páginas dos manuscritos medievais, como a mariposa à margem esquerda desta mesma página:
O pobre inseto entusiasta acima só pode olhar melancolicamente a mariposa de seu posto, incapaz de subir mais alto para não sair das plataformas.
Agora, esta atenção para a gravidade é uma tendência geral, não uma regra imutável. Se você folhear manuscritos góticos o suficiente, encontrará muitas exceções, ainda que muito menos do que você possa esperar. Na verdade, eu descobri que quanto mais adornado é o manuscrito, mais consistentemente os artistas tenderão a respeitar o papel da gravidade na página. Manuscritos luxuosos como o Lacelote de Yale ou o Alexandre Boldeiano são escrupulosos em garantir que tudo esteja sobre um suporte, que necessariamente está ligado a outro, consequentemente está ligado aos pontos fundamentais da página. Na verdade, os melhores manuscritos propositalmente brincam com a expectativa de atuação da força da gravidade, criando conexões elaboradas e ornamentadas entre os objetos na página.









