
O código de vestimenta proíbe:
- Chapéus para leigos dentro da Basílica;
- Bermudas e saias acima dos joelhos;
- Camisetas sem manga;
- Blusas que mostrem o umbigo;
- Blusas decotadas;
- Blusas que contenham obcenidades;
- Excesso de joias e acessórios;
- Uso de celulares, além de ser proibido fumar.
A placa de alerta para o código de vestimenta está presente bem na entrada da Basílica de São Pedro. Não há como entrar na Basílica e ignorar os sinais de proibido e permitido dispostos numa placa amarela como a que podemos ver acima. É um claro indício de que naquele lugar existe uma cultura normalizadora de comportamentos. Você pode ser católico ou não, italiano ou não, homem ou mulher, todos devem se submeter à lei da modéstia que deveria estar presente em todas as igrejas do mundo.
Vocês devem ter aprendido que dentro de quase todo texto existe sempre algo implícito, nas entrelinhas. E no que concerne à plaquinha amarela na porta da Basílica de São Pedro, lê-se: “Não se aproxime ; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Êxodo 3, 5). É uma forma formal de dizer que aquele lugar não é museu, não é galeria de arte e nem sobretudo um meeting point, um lugar para encontrar os amigos. Na prática, a reverência que nos desperta a arquitetura sacra já é sinal suficiente para que se ocorra uma metanoia instantânea ao pisarmos na igreja. É como se as paredes fizessem o papel da plaquinha amarela.
Infelizmente o homem moderno encontra-se sofre de um mal crônico: os sinais já não significam. Dou-vos um exemplo, quando eu viajara há dois meses para a Europa, notei que em quase todos os museus havia uma clara orientação para que ninguém tirasse fotos das obras. Acho que o turista comum; de tanto ver aquele lembrete, que se justifica porque o flash danifica a obra e nem todo mundo sabe usar uma máquina fotográfica, todos deveriam estar ciente de que a máquina ali seria um adereço inútil, pois há uma lei proibitiva. Alguém receita? Poucos. Em geral, acredita-se que aquilo é uma grande besteira e que o que vale é a lembrança de uma viagem única.
Mas o problema é muito mais grave. Não obstante as pessoas não reconhecerem o significado inerente ao sinal, o próprio clero esforça-se muito em não fazer nada quanto aos gostos dos fieis. Em suma, o maior sinal de que as coisas vão bem é ver todo mundo com um largo sorriso no rosto festejando o que vale a pena festejar, ou seja, o bem-estar coletivo. Assim, a igreja converte-se mais num lugar a mais para socializar que um verdadeiro templo de culto. Uma coisa que, a despeito do exagero de algumas obras, sempre vou admirar no barroco é a intenção do movimento. Não é preciso ir a Roma para ter contato com uma espécime legítima desse período artístico. As igrejas de Ouro Preto e Mariana, por exemplo estão aqui do lado. Mas, afinal, qual a intenção desse movimento? Mostrar por todos os meios possíveis que “o tempo está próximo”. Cenas do juízo, santos em êxtase, visões da glória, o demônio tentando, tudo isso nunca foi tão claro nos movimentos artísticos anteriores e posteriores. Não se trata aqui de defender uma volta ao Barroco, mas de aplicar essa mentalidade muito particular à nossa postura ao entrarmos numa igreja.
O lembrete implícito nas obras do Barroco é importante para que o homem moderno compreenda que estamos vivendo numa época de contrários. Procuramos na igreja…e mais, procuramos uma igreja onde possamos nos sentir bem; onde Jesus se molde à minha concepção particular de Jesus; onde o preto seja cinza e o branco, azul clarinho. No mais das vezes, apesar de uma igreja imponente como a São Pedro nos dar motivos mais que suficientes para tocarmo-nos que estamos entrando num lugar santo e que é necessário “tirar as sandálias”, é preciso ser mais claro. Aliás, é preciso ser escrachado. Por fim, infelizmente, é preciso, que uma plaquinha em amarelo “shock” nos diga: “ei, criança, comporte-se porque senão você não vai para o parquinho, viu?!”.




