Ontem estava folheando algumas páginas do excelente livro de Fábulas de Esopo e encontrei uma que tem um especial significado especialmente nesse momento em que eu estou vivendo:
As rãs vizinhas
Duas rãs eram vizinhas. Uma morava num açude profundo, afastado da estrada, e a outra numa pequena poça d’ água, por onde todos passavam.
-Queres um conselho? – perguntou a rã do açude à outra. – vem morar comigo. Assim terás uma vida agradável, longe do perigo.
Mas a outra não se deixou levar:
- Sofrerei – disse ela -, longe de meus hábitos.
Um dia ela terminou sendo esmagada pelas rodas de uma carroça.
Assim acontece com os que, preocupados com ninharias, morrem antes de ter feito algo importante.
ESOPO. Fábulas. Porto Alegre: L&PM, 2011.
Não é preciso explicar muita coisa. Eu pude me encaixar perfeitamente na figura da rã acomodada, que não quer sair de sua condição confortável. Antes eu tinha medo de morrer em inimizade com Deus (impenitente). Hoje já penso um pouco mais além. Meu maior medo é morrer levando uma vida medíocre, daquelas que viramos por opção apenas mais um número na história da humanidade.
Não se trata aqui de buscar poder e glória, mas de demonstrar que estamos sim destinados a grandes coisas, dentre elas a mais importante de todas é o céu. E engana-se quem pensa que é preciso ter uma vidinha medíocre para conquistar esse grande bem. O próprio Evangelho nos garante que “o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam. (Mt 11, 12)
Uma coisa que tenho trazido na mente nesses últimos dias é um fato bem divertido. Sabiam que Eike Batista, o homem mais rico do Brasil faz questão de inserir um “X” em todas as suas empresas? LLX, MMX, MPX e OGX…são empresas que levam em comum o sinal de multiplicação. Muitos acham que é superstição. Eu prefiro acreditar numa simbologia. Para Eike o “X” representa a multiplicação de todas as coisas boas que ele aspira para seus empreendimentos. Muitas vezes nós cristãos esquecemos que carregamos um sinal muito mais grandioso em nossa alma: a cruz. Pelo batismo garantimos resultados para além da simbologia.
Numa sociedade que privilegia e vende o bem-estar e o conforto acima de tudo, é difícil acostumar a mente com atitudes tão radicais e penosas quanto a do sapo do açude. No mais das vezes é preferível morrer a perder a evidência, a comida fácil e todas as coisas que se consegue na beira da estrada. Mas que seria o açude? Para mim a resposta é simples: é todo momento decisivo da nossa vida em que optamos pelo caminho mais fácil diante de duas opções igualmente boas. Nesses casos vale uma frase que ouvi ontem num comercial de TV: ”Quando somos jovens, aprendemos. Quando ficamos velhos, entendemos”. (Marie Von Ebner-Eschenbach)
Várias vezes já passei por isso. Num primeiro momento eu tomei a decisão descrente, sem saber no que ia dar, mas tomei, firme, decidido. Mais à frente me vem aquela grande certeza: “eu sempre quis fazer isso, mas nunca tive consciência”. Acontece que comumente somos ensinados a conhecer muito sobre a natureza, a ciência, a arte, os outros, mas nos esquecemos de conhecer aquilo que somos, quem nós somos. Conhecer-se é essencial para tomar decisões difíceis com segurança, ainda que não tenhamos uma visão antecipada do resultado daquelas decisões. Isso porque para quem se conhece, todo resultado, positivo ou negativo, é apenas mediato no grande curso em direção ao que esperamos.




