Quando alguém quer se referir a algo que gosta muito pode dizer “esta é a minha praia”. Pois bem, no momento eu posso dizer que história da arte está sendo a minha praia. Acabei de ler o livro escrito pelo grande Ernest Gombrich sobre esse mesmo assunto e só penso em me aprofundar cada vez mais nesse mundo.
Tudo começou com a minha visita ao Museu do Prado em Madri no ano passado. Apesar de hoje eu ter consciência de que aproveitei muito menos do que gostaria, essa visita serviu de alicerce para esse meu novo interesse.
Sem me estender muito, eu gostaria de introduzi-los a um novo empreendimento aqui no blog que tem muito a ver com tudo isso. Trata-se do “Orando com arte”. Nos posts com essa temática eu pretendo partilhar um pouco das meditações/análises que faço das obras de arte sacras. Este será um meio de tornar mais conhecido o imenso patrimônio artístico das obras feitas para Deus ao longo dos séculos. Sintam-se à vontade para sugerir obras e partilhar outras visões sobre a mesma obra analisada:
A primeira pintura sobre a qual eu gostaria de comentar é “A vocação de São Mateus”, de Caravaggio. Conheci essa pintura na Igreja San Luigi dei francesi, em Roma. Logo que entrei na Igreja percebi que havia uma masterpiece digna da grande quantidade de turistas aglomerados. Ouvi comentarem: “aqui tem um Caravaggio”. Logo percebi.
Tentei passar aos poucos um a um até finalmente encostar na grade que separava a pintura do resto da Igreja. Foi amor à primeira vista. Por mais clichê que isso pareça é como se aquela pintura estivesse dizendo algo especial para mim naquele momento.
O que mais me impressiona nas pinturas de Caravaggio não é nem o modo naturalista e realista que ele pinta seus personagens (não parece uma fotografia?), mas sobretudo a disposição dos personagens na tela. É como se o Evangelho estivesse verdadeiramente congelado naquele momento específico da história, há dois mil anos atrás.
O primeiro ponto que eu gostaria de chamar atenção é para a luz que atravessa diagonalmente a pintura em direção ao cobrador de impostos. Caravaggio tem uma marca muito própria, que é a criação de luzes artificiais (não solares) para dar destaque a certa parte da cena. No caso dessa pintura, é como se a janela (em formato de cruz) destacada pela luz estivesse prenunciando sutilmente a morte dolorosa pela qual o apóstolo seguiria seu mestre.
Um segundo ponto é particularmente o que acho mais lindo de todos: Jesus Cristo, olhar determinado, viril e solene aponta para o cobrador de impostos como se dissesse: “Segue-me!” (Lc 5, 27). Entre Jesus e Mateus, prestem bem atenção, como que para intermediar a escolha, está Pedro, a Igreja. É como se Caravaggio estivesse dizendo que toda vocação para Jesus Cristo se dá na Igreja e por meio da Igreja. Pedro é a testemunha fiel do chamado e da resposta que viria em seguida.
Por último, ainda que eu peque por omissão, eu gostaria de destacar as reações dos personagens. Primeiro a de Levi. Não há como não se colocar no lugar do cobrador de impostos nesse instante. Cada vez que olho para essa pintura (eu tenho um cartão postal dela) eu penso em quantas vezes Cristo já me chamou e eu fingi que não era comigo…o cobrador de impostos sabe que Cristo fala com ele, mas mesmo assim reage com a surpresa de um “É comigo mesmo?” Enquanto isso, o senhor e o rapaz à esquerda continuam a mexer com o dinheiro dos impostos como se nada estivesse acontecendo. É o indiferentismo que já atravessa dois mil anos e continua forte nos dias de hoje. Enquanto isso, um menino (que poderia ser seu filho), observa com extrema curiosidade aquele estranho chamado. Para ele o mundo tinha parado ali, pois, com a mesma surpresa de Levi, ele, conhecendo bem Levi, poderia ter questionado como alguém se preocuparia com um pecador público, com um cobrador de impostos. Enfim, no primeiro plano um jovem ouve atentamente a explicação de Pedro possivelmente sobre o que Cristo vinha fazer ali ou mesmo quem seria Cristo. Pedro, o chefe da Igreja já anunciava Cristo sem se dar conta. Para ele o anúncio nada tinha de difícil, pois tudo o que dizia respeito a Jesus lhe era conhecido e próximo.
Dados técnicos:
A Vocação de São Mateus
Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1600.
Óleo sobre tela, 322 x 340 cm.
Capela Contarelli, igreja San Luigi dei Francesi, Roma.






Ótima idéia esta de posts de arte-sacra!
Sempre quis conhecer mais obras de arte sacras.
Abraço!