Eu faço missões nas casas há algum tempo e tenho percebido que, apesar de os protestantes crerem piamente no Sola Scriptura (a Bíblia e somente a Bíblia contem tudo o necessário para a salvação), há certas frases que rotineiramente que contradizem abertamente esse princípio. Quase sempre há um esforço para combater o catolicismo em pontos que não estão escritos explicitamente na Bíblia, mas também no protestantismo existem certos ensinamentos que não estão na lá (apesar de popularmente acharem que estejam). Caso alguém encontre algum versículo desses em sua bíblia, católica ou protestante, favor avisar porque na minha não estão!
Versículo 1: “Não crerás em nada que não estiver escrito na Bíblia” (Zebogenias 123, 10)
As sagradas escrituras, conjunto de livros oriundos tanto da religião judaica quanto da tradição oral cristã, foi compilado ao longo dos séculos pela Igreja Católica. Será que alguém poderia discordar disso? Pois bem, apenas uma autoridade foi usada nesse interim para dizer “isso é válido (canônico), isso não é válido”, a da Igreja Católica, dada por Jesus Cristo ao apóstolo Pedro. Muitos evangelhos foram escritos, dentre esses estão os que hoje compõem o Novo Testamento, outros foram descartados, outros ainda ficaram como objeto de caráter histórico/espiritual. Mas nunca podemos nos esquecer que muitos nunca foram escritos, ou seja, permaneceram na Tradição perene ensinada pelos bispos, papas e padres ao longo dos séculos. Quando dizem que a Igreja inventou isto ou aquilo, não se questiona de onde veio, há quanto tempo se acredita naquilo. O único questionamento é: está na Bíblia? Os heresiarcas da Reforma estipularam um dogma que por mais contraditório que possa ser não está na própria Bíblia, não possui fundamento na tradição do cristianismo (afinal, os primeiros cristãos passaram séculos sem um livro organizado) e nem por isso deixavam de acreditar em outros ensinamentos importantes para a salvação.
Versículo 2: “Cada fiel possui autoridade legítima para interpretar as Escrituras” (Piripipi 10, 1)
Isso é um grande problema dentro do próprio protestantismo. Já ouvi muitos protestantes dizerem que fazem parte de UMA Igreja (o cristianismo), que creem em UM líder, que buscam UMA vida eterna e assim seguem os pressupostos de uma unidade frágil e abstrata. Explico: toda organização, possui um líder que serve, dentre outras coisas, para coordenar, unificar, disciplinar, regular o bom funcionamento dessa mesma organização. Em se tratando do protestantismo e dessa falsa igreja invisível que reúne todos os protestantes fica patente um questionamento: se há apenas um líder (Jesus Cristo), por que há tantas verdades? Não é estranho isso? Mas qual a razão disso tudo? Se alguém acorda num dia e recebe uma luz sobre determinado versículo, acha-se capaz de ensinar sobre determinado ponto. Se aquele ponto tem aceitação de um determinado grupo, esse grupo recebe o nome de igreja fazendo parte da grande igreja protestante reunida em nome de Jesus Cristo. A Igreja Católica, por outro lado, sempre teve muito receio da livre interpretação. Não para guardar o poder para si, mas para impedir que a única fé recebida posse mitigada se retirada do contexto ou lida sem o devido conhecimento. Eis mais um exemplo de dogma protestante que não está na Bíblia e que, seguindo a mesma linha de raciocínio fundamentalista que eles usam para os ensinamentos católicos, deve ser rejeitado.
Versículo 3: “Atingindo a idade da razão, todo fiel deve ser batizado” (Anazias 8, 8)
Os protestantes não batizam as crianças baseando-se no fato de Cristo ter sido batizado adulto e não criança. Ora, questionemo-nos, Cristo era judeu. Que eu saiba não era costume dos judeus batizarem crianças. Por outro lado e isso sim é bíblico, “Todo aquele que crer e for batizado será salvo”. O crer e o ser batizado andam juntos, como a conjunção aditiva explicita. Assim, seria compreensível que a pessoa fosse batizada adulta, pois crianças não possuem maturidade suficiente para manifestar inequivocamente a sua fé. Porém, há aí uma incompreensão do batismo. Essa é, como explica Bento XVI, a condição para que o homem passe a fazer parte da família divina. De criatura, nasce o filho; da inimizade do pecado original surge a amizade com Deus. Muitos relativizam a importância do batismo das crianças por acharem que Deus não condenaria seres inocentes e sem consciência dos próprios atos em caso de morte. O julgamento dessa matéria cabe a Deus e somente a Ele. Porém, o batismo como um primeiro passo, nos predispõe ao crer. Negar o benefício de, como diz Bento XVI, fazer parte de “uma nova família, maior e estável, mais aberta e numerosa que a nossa: refiro-me à família dos crentes, à Igreja, uma família que tem Deus por Pai e na qual todos se reconhecem irmãos em Jesus Cristo” é negligência dos pais. Se cremos que há uma comunhão entre os membros da Igreja e que um reza pela salvação, pelo crescimento espiritual do outro, não podemos admitir que se negue a graça do batismo às crianças. Até porque esse dogma protestante também não está na bíblia.
Versículo 4. “O homem é justificado SOMENTE pela fé” (Oboé, 5, 23)
O versículo em que se baseia a Sola Fide (a salvação somente pela fé, sem obras) dos protestantes está em Rm 3, 28, onde se lê “porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei”. E por incrível que pareça, alguns versículos abaixo o escritor sagrado explica “Destruímos então a lei pela fé? De modo algum. Pelo contrário, damos-lhe toda a sua força”. Como seria possível dar força à lei dizendo que elas não são necessárias para a justificação? É simples: considere o contexto das coisas. O que o apóstolo queria combater? A lei divinamente instituída (“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas”- Mt 5, 17) ou o farisaísmo? Portanto quando o apóstolo fala de fé ele se refere ao modo de seguir a lei demonstrado e esclarecido por Jesus Cristo durante a sua vida, não da observância radical e hipócrita dos fariseus. Nesse sentido, “observância da lei” seria assim uma falsa religião (re-ligare) preocupada apenas com legalismos e com convenções sociais que em nada lembrava a lei do amor pregada por Cristo”. Quando se prega que seja possível uma justificação somente pela fé, volta-se ao que os próprios fariseus faziam. Em outras palavras, a fé (que os fariseus também diziam ter) não se traduz na vida. Isso é hipocrisia da mesma forma. Além disso, a palavra somente que os protestantes atribuíram ao dogma sola fide não está no versículo supramencionado.






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