Hattie Morahan, como Elinor, e Charity Wakefield, como Marianne, na versão de Razão e Sensibillidade para a série da BBC de 2008.
Neste ano, como já falei aqui no blog estou tocando à frente o projeto de ler livros clássicos da literatura universal. Ontem terminei de ler o clássico “Razão e sensibilidade“, de Jane Austen. Resolvi ler Jane Austen por agora devido às inúmeras recomendações de minha mãe. Ela adora filmes e depois de ter assistido às adaptações, leu o livro em tempo recorde.
Eu também não demorei muito para ler Razão e sensibilidade. Quanto à linguagem, é um livro extremamente leve, um típico romance romântico. Em síntese, trata das diferentes maneiras como duas irmãs lidam com decepções amorosas na sociedade do século XVIII.
Na verdade são três irmãs, Elinor, Marianne e Margaret. Esta última não possui um papel de destaque no livro, sendo as irmãs mais velhas as protagonistas da história de Austen. De um lado está Elinor, sempre muito cordial com todos, preocupada em manter as aparências da época, moderada em seus sentimentos e muito afeita a julgar comportamentos e personalidades. Poderíamos chamá-la racional ou crítica. Do outro lado está Marianne, extrovertida, franca, meio indisciplinada e principalmente dada a levar seus sentimentos ao extremo de tudo. Marianne é a personificação do sentimentalismo.
O mais interessante desse romance não é nem o enredo em si, mas a questão que Austen pretende suscitar na cabeça dos seus leitores: qual seria um comportamento mais digno: agir racionalmente ou emotivamente? Ambas as irmãs tiveram foram traídas de modo muito semelhante. Enquanto Marianne, a emotiva chorou páginas e páginas, ficou doente e quase morreu por sua desilusão, Elinor paulatinamente contruíra um dique para represar o mar de tristeza que a traição de seu amor lhe proporcionara.
Jane Austen, na minha opinião passou duas grandes mensagens nesse livro. A primeira delas é que Elinor (algumas traduções a ligam ao bom senso) só c0nseguiu resistir à tentação de desabar em sentimentos como aconteceu com Marianne tomando a firme decisão de ajudar sua irmã em tudo o que era preciso. Elinor passou dias a fio servindo, cuidando, consolando, suportanto Marianne por sua situação de amor doentio por Willoughby. Ou seja, Austen mostra o que há muito aprendi pela vida dos santos: só percebemos o quão pequenos são os nossos problemas quando nos deparamos com o problema do outro. Assim, doando-se, ela pôde superar seus próprios problemas colocando amor onde antes só havia vazio, desilusão.
A outra coisa que aprendi com o livro de Austen é que durante a história há uma constante contraposição entre as duas personalidades: a racional e a emotiva. Desse modo, mais que saber o que aconteceria com as duas irmãs, o que o leitor realmente queria saber era qual dessas duas personalidades venceria. No fim do livro, Marianne recupera-se de suas afetações( “o tempo é senhor da razão), a0 meditar s0bre o m0do como sua irmã lidou com a mesma situação que a sua de um modo muito mais satisfatório. Para um leitor desatento, parece que o testemunho de ambas as irmãs prova que no fim a razão, o racionalismo é sempre a melhor escolha. No entanto, analisando bem a conduta de Elinor, fica patente que ela não é uma racionalista, uma pessoa que vive de sublimações, de repressões de sentimentos como seria próprio de uma alma cirurgicamente racional. Elinor também chora, também erra, também fala o que não deveria. Ou seja, no fim, Austen quis mostrar que nem o racionalismo nem a emotividade radical são soluções a termo para o bom êxito na vida, mas o equilíbrio.
Ah, eu ainda poderia acrescentar mais um ponto essencial do livro. Percebi que quando a autora traduzia as impressões que Elinor tinha de quase todos os personagens, sempre vinha uma profusão de adjetivos. Austen mostra uma coisa que é muito própria dos espíritos críticos: ela não consegue analisar a pessoa por inteiro, mas analiticamente, por partes. Em outras palavras, ao pensar em fulano, nunca vejo só fulano, mas uma pessoa amigável, meio imprudente, bem apessoada, gentil quando convém, estudiosa, etc. Ou seja, ela tenta olhar a pessoa complexamente. Muitas vezes pessoas assim acabam sozinhas ou amarguradas por nunca encontrarem qualidades suficientes nos outros. Porém, por meio de Elinor podemos perceber que tudo isso pode servir para que reconheçamos nas pessoas os nossos próprios defeitos. Elinor evitava praticar tudo o que achava repulsivo nos outros. E essa atitude de autoconhecimento levou Elinor a ser a grande protagonista da história, revelando em si mesma o benefício de uma heroína que prefere refletir antes de tudo.





