“Oh lord, I’m still not sure what I stand for
What do I stand for?
What do I stand for?
Most nights, I don’t know…
Anymore”
(Fun)
Nestes últimos dias estive pensando em muitas coisas que eu gosto, mas nunca mais tive a oportunidade de fazê-las. São coisas simples: jogar voleibol, comer besteira num fastfood, escrever uma poesia ou jogar xadrez.
A gente sempre tem uma tarefa mais importante, mais útil, mais urgente na frente dessas coisas amenas da vida. É a monografia, são os estudos para concursos, um romance que você tem que terminar, enfim. Sempre esperamos ficar velhos, aposentados e desocupados para fazer o que com um pouco de planejamento poderia ser plenamente realizado durante toda a vida.
Engana-se quem pensa que só as coisas reconhecidamente importantes pela sociedade devem ser levadas em conta numa vida sadia. Se eu fosse um psicólogo receitaria o seguinte: que o indivíduo fizesse um exercício de anamnese e listasse as coisas mais “legais” de cada ano de vida (podendo repetir) para analisarmos por que paramos de fazê-las e se realmente conviria tê-las aband0nado.
Aqui há de se evidenciar a impregnação das teorias do utilitarismo, de John Stuart Mill e do consequencialismo, ou seja, faça apenas o que te trouxer um benefício real ou aparente. O restante não passa de distração no percurso da corrida. Outra teoria interessante que apesar de muito antiga (século VI a. C.) tem total relação com esse fenômeno é o epicurismo: a busca da eliminação dos sofrimentos e a busca dos prazeres a todo instante. Olha, pelo menos na minha experiência pessoal tenho visto que essas teorias estão muito distantes da vida real, apesar de serem constantemente pregadas por todo canto.
O fato é que estamos numa época de muitos ismos…eu poderia citar pelo menos mais uns três, todos com conotações negativas para o indivíduo e para a sociedade. Eu poderia também dizer que a solução para isso está na religião. Explico: quando muitos pregam que a religião aprisiona o indivíduo, esquecem-se que a percepção dessas distorções evidenciadas pelos “ismos” são constantemente denunciadas nos púlpitos sérios. Claro que diante das massas nem sempre convém falar de teorias e discussões ideológicas – o povo quer simplesmente ouvir sobre Deus. Porém, a elucidação desses inimigos silenciosos está na pauta das religiões mais que em qualquer outro tipo de organização.
Em se tratando dessas ideologias mencionadas, podemos dizer que são muito mais perigosas que a mera dialética religiosa do cristão: vícios versus virtudes. Pois, se para o indivíduo irreligioso passam despercebidos os vícios e virtudes e muitas vezes também inumeráveis “ismos”, a preocupação do cristão não pode se resumir à busca das virtudes e a repulsa dos vícios. Existem diversas outras armadilhas que ferem o cristão por tabela, notavelmente representadas pelas ideologias que mencionamos.
Na minha opinião, em qualquer caso, a volta à simplicidade da vida já é por si uma contraposição ao que podemos denominar “agendamento das vontades”, ou mandamentos de felicidade que a TV, a internet, os artistas, o governo nos ditam diariamente. Vale lembrar que essas coisas simples e muitas vezes tidas como banais são quase sempre símbolos de uma tradição perdida. Em outras palavras, querem fazer-nos aceitar que as coisas tradicionais, por simplórias, devem ficar guardadas no porão, enquanto o que as que são modernas e da moda devem ser obedecidas fielmente como a continência diante do general. Portanto, estamos falando de um duelo entre a tradição e a modernidade, entre a simplicidade do passado e a complexidade da modernidade, entre os costumes e a novidade, entre a banalidade e a necessidade requerida.
Se vale um conselho diante disso tudo, eu diria que o maior de todos é termos consciência da própria humanidade, dos próprios limites. Há uma frase de que gosto muito que diz: “primeiro o homem, depois o santo”. Esta quer dizer: lide primeiro com os dilemas próprios da sua condição. Isso certamente te fará uma pessoa melhor. A respeito disso, não sei quem leu/assistiu à trilogia “O Senhor dos Anéis” (isso é muito mais evidente em “O Silmarillion”), mas lá podíamos ver claramente raças de Elfos, anões, hobbits e homens, cada um com as suas diferenças, lutando pela pacificação de um mundo em conflito. É interessante perceber nos hobbits que justamente a consciência desses limites puderam levá-los a assumir uma missão muito maior que a que todos esperavam ser possível. Eles não prometeram teletransporte, raios de fogo saindo pelos olhos, lâminas mega-afiadas, etc., mas levar o anel ao seu destino passo-a-passo. Enquanto isso, o mundo se auto-destruía. Não é mais ou menos o que vivemos hoje? A diferença é que insistimos em envolver-nos no meio de uma bagunça quase sempre vã.
Por fim, há uma historinha atribuída a são Domingos Sávio que reflete mais uma vez a necessidade de avaliarmos nossa vida para reencontrar as coisas simples que deixamos de fazer durante a vida:
Certa vez num grupo de crianças uma delas perguntou: “se o mundo acabasse hoje, o que vocês fariam?” O primeiro respondeu:
- “Eu correria atrás de um padre para me confessar”. Outro respondeu:
-”Eu procuraria uma Igreja para assistir à missa”. Então perguntaram a Domingos e ele respondeu:
-”Eu continuaria brincando…”.




