Na primavera de 1509, apenas dois anos depois de um cartógrafo cunhar o nome “América” em homenagem ao explorador Amerigo Vespucci, um conterrâneo seu, chamado Buonarotti estava começando a trabalhar em uma das mais importantes obras primas da civilização ocidental. Seu nome – Michelangelo – também reverberaria pelos séculos vindouros. E, como muitas das primeiras viagens transatlânticas do descobrimento, seus afrescos no teto da Capela Sistina em Roma também tiveram um péssimo começo
“Ele estava trabalhando nas maiores pinturas do teto quando o próprio gesso fresco fora atacado por certo tipo de mofo surgido do cal, o que equivale a uma grande colônia de fungos”, disse Andrew Graham-Dixon, chefe de crítica artística do Sunday Telegraph, de Londres. “Então ele teve que voltar à estaca zero e recomeçar tudo de novo. Às vezes o trabalho andava. Aí ele ficava mais tranquilo”.
Apesar das condições adversas e até mesmo do desafio que era pintar a uma altura de quase vinte metros, era preciso um talento considerável. Sem falar no desafio de construir as estruturas de andaimes e plataformas afixados por buracos nas paredes especialmente abertos para essa função. Ainda assim na época Michelangelo revelou o trabalho em 1512. Ele teve sucesso ao criar um trabalho de um gênio transcendente, o qual continua a atrair milhões de peregrinos e turistas à Cidade do Vaticano a cada ano. A Capela Sistina desempenha um papel central na cristandade como capela privada do papa e sede do conclave, onde o colégio de cardeais reúne-se para eleger os papas. Porém, graças a Michelangelo, o significado dessa capela se estende a todos os que sentem-se inspirados pela sua originalidade e pelo seu visionarismo. Essa obra, direta ou indiretamente, por meio de sua influenciou de certa forma os artistas subsequentes e a iconografia da cultura mundial.
Graham-Dixon estudou a fundo as pinturas da Capela Sistina por algum tempo e escreveu suas conclusões no livro Michelangelo and the Sistine Chapel, para leitores em geral. Este livro foi publicado para coincidir com o 500º aniversário de conclusão das pinturas da Capela. Na medida em que ele buscava detalhes, mais e mais motivos ele encontrava para admirar e ponderar sobre a obra.
Pegue, por exemplo, A criação de Adão, com a sua retratação do dedo de Deus apontado para tocar do dedo de Adão, sem dúvida alguma o detalhe mais famoso de todos. É impressionante quantas vezes ele já foi reproduzido e copiado. Basta lembrar-se do conhecidíssimo poster do filme E.T.
“Ainda assim eu me questionava: por que Michelangelo pensaria que Deus criou Adão com um dedo?”, disse Graham-Dixon. “Em outras representações como as portas de Ghiberti em Florença, Deus ergue Adão com um gesto de sua mão. Depois de ter passado por diversas ideais e teorias, comecei a ver isso como a Criação da Educação de Adão, pois esse é o simbolismo do dedo. Deus escreve em nós com seu dedo em algumas tradições da teologia. Na tradição judaica, essa é a forma com que Deus escreve as tábuas dos Dez Mandamentos dadas a Moisés – Ele como que inscreve nelas com um laser que sai dos dedos. O dedo é o condutor pelo qual a inteligência de Deus, suas ideias, sua moral são transmitidas ao homem. E se você olhar para aquela pintura atentamente, você verá que Deus não olha para Adão. Ele olha para o próprio dedo, como que para canalizar suas próprias instruções e pensamentos por meio daquele dedo”.
O livro de Graham-Dixon também leva em consideração várias controvérsias e mitos relacionados à Capela Sistina como a que diz que Michelangelo pintara o teto da Capela deitado de costas. Essa é a forma como ele é retratado no filme de Holywood “A agonia e o êxtase”, de 1965, baseado no romance histórico de Irving Stone. “Na verdade Michelangelo pintava em pé”, diz Graham-Dixon, mas tinha que entortar seu pescoço num ângulo horrível por quase quatro anos. Isso causou nele dolorosos espasmos, cãibras e dores de cabeças. “Minha barba na direção do Paraíso, eu sinto como se a ponta traseira do meu cérebro tocasse meu pescoço”, escreveu ele num poema satírico para um amigo. “O meu lombo já penetrou a minha pança…Eu não estou em um bom lugar e eu não sou nenhum pintor”.
Ele dizia isso literalmente. O Michelangelo de 34 anos já era renomado por estátuas como Davi e Pietà e ele olhava para a Capela Sistina, comissionada a ele pelo papa Júlio II com a máxima desconfiança. Na verdade ele achava que os seus inimigos e rivais tinham orquestrado a ideia para vê-lo cair em desgraça. “Michelangelo sentia que o próprio Deus havia o escolhido para ser escultor”, disse Graham-Dixon, “portanto, ser chamado para pintar – ele não considerava aquilo como uma vocação séria. Pelo contrário, o que ele queria fazer; o que ele havia gastado anos de sua vida se preparando para fazer (chegou a passar oito meses nas montanhas de Carrara com dois homens e um burro), era criar um mausoléu m0numental para júlio II”. Uma tumba muito menor foi completada alguns anos mais tarde…
Por cinco séculos, as pessoas falavam das obras-primas de Michelangelo como se tivessem sido realizadas por uma genialidade sobre-humana. Mas mesmo o temperamento moderno democrático reflexivamente busca o lado humano dos heróis e celebridades, buscam experimentar suas lutas e falibilidades de perto. Graham-Dixon sugere que o busca por uma identificação e conexão não se aplicam em se tratando da Capela Sistina.
“Eu tenho que dizer: isso é sobre-humano”, diz ele. “Eu considero a Capela Sistina uma obra de arte assustadora. Ela não é aceitável nos padrões humanos em muitos sentidos. Ela apresenta a imagem de Deus como um sonho ao qual nós aspiramos. Ela descreve o sonho de unidade com Deus, como aquele de quem fomos expelidos e só podemos voltar a isso com um grande compromisso de oração e trabalho duro. Também há um sentido, que eu acho…na verdade é apenas uma intuição que eu tenho a qual eu não posso justificar, mas eu tenho a intuição de que Michelangelo Michelangelo sentia que estava muito, muito acima das multidões de pessoas normais. E não apenas fisicamente, em cima de sua plataforma, mas moralmente também. Existe, é claro, certa humanidade nisso, mas é uma humanidade do tipo muito, muito densa e esse tipo de humanidade dificilmente se traduz numa bela imagem”.
Talvez não seja uma nela imagem, mas certamente inspira admiração no sentido mais sincero do termo.
Texto: Jamie Katz (Smithsonian)





