“Não é o amigo ou o inimigo que o persuade o homem a seguir pelos caminhos do mal”
(Buda)
À primeira vista Criminal Minds parece só mais um seriado policial que retrata o quotidiano de agentes do FBI. Nada mais comum que esse tipo de seriado nos Estados Unidos. Esse tipo de seriado comumente tem mais de sete temporadas , como é o caso do próprio Criminal Minds. Para ser bem sincero, nunca me interessei muito por séries desse gênero por achá-las excessivamente repetitivas e, portanto, banalizadas. Mas recentemente passei a acompanhar alguns episódios de Criminal Minds por influência da minha mãe. Essa série se destaca principalmente por uma abordagem diagnóstica dos atos criminosos. Para que vocês entendam o que achei de especial nela, terei que focar-me em determinado episódio.
Em linhas gerais esse episódio conta o caso de um rapaz chamado Ben com seus vinte anos que é influenciado por supostas más influências a cometer homicídios e usar drogas. Com o correr do episódio descobre-se que Ben sofre de esquizofrenia e toma remédios há anos para tratar o problema das “pessoas” que insistem em perturbá-lo. Num determinado momento Ben resolve pedir ajuda à sua mãe que por sua vez diz estar cansada das atitudes do filho e repassa o problema para a igreja (“Busque a igreja”! e desliga o telefone). Ben resolve ao padre que realize um exorcismo, tendo em conta que já tinham feito um há alguns anos atrás (à la Universal do Reino de Deus) e o problema havia sido cessado temporariamente. O padre, para a minha grande surpresa, responde: “a Igreja já não realiza mais exorcismos. procure um médico”. Ben então sai da igreja desolado por perceber que suas chances de salvação iam por água abaixo mais uma vez. Sua medicação não produzia os efeitos esperados, sua mãe cansara-se dele e o padre – um incompetente- eximira-se da grande culpa de ser um ministro ordenado.
Os agentes do FBI na série passam a investigar toda a vida pregressa de Ben para tentar compreender sua mente criminosa. Essa medida demonstra que muitas vezes um crime é algo muito mais complexo do que os efeitos imediatos e acidentais podem mostrar. Ao analisar o comportamento, a história, os relacionamentos, a saúde do criminoso, antes de absolvê-lo por conta de uma série de fatalidades da vida, os agentes precisam ser muito humanos para criarem uma empatia com eles. Aqui vale lembrar que todos estão suscetíveis às mais adversas condições e misérias humanas. Afinal, é muito mais simples demonizar um criminoso por seus atos sociopatas sem buscar compreender o que o levou a praticar tais crimes.
Não há como evitar, no entanto, que fiquemos chocados diante dos atos bizarros que a mente humana é capaz de gerar em termos de criminologia, mas o mais interessante de Criminal Minds é a demonstração de que essa é apenas a ponta do iceberg. Como nos ensinam os Evangelhos, incomoda-nos muito mais o cisco no olho do outro que a trave que nos impede de ver as coisas com nitidez. Apesar de depararem-se rotineiramente com os mais atrozes atos de maldade e frieza possíveis, não é raro que os agentes se compadeçam das misérias desses indivíduos por uma razão bem simples: “quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho”. Portanto em Criminal Minds há um esforço evidente para que o espectador entenda a profundidade e a complexidade além dos crimes. Os roteiristas tiveram o cuidado de deixar claro que o caso de Ben não era um caso qualquer. Nas últimas cenas o rapaz aparece numa clínica psiquiátrica após ter recebido um tratamento de reabilitação por eletrochoques. Poucos minutos depois de Ben volta a receber a indesejada visita de seus antigos perseguidores dizendo: “Você não vai conseguir se livrar da gente Ben, o nosso espírito te perseguirá para sempre”. O caso pode ter sido resolvido legalmente, mas pelo menos para mim ficou claro que o problema continuará existindo porque alguém esqueceu-se de arrancar a raiz da erva daninha.





