Hoje o cidadão comum tem quatro semanas de férias por ano, sem contar sábados e domingos, mas no século XV todos os franceses dispunham de 15 semanas de descansos anuais. Onde foi parar todo esse tempo livre?
A citação acima introduz um conjunto de três reportagens que a revista História Viva de agosto desse ano traz sobre a Idade Média. Muitos historiadores legitimamente poderiam criticar a revista por usar um recorte específico (os artigos são de escritores franceses sobre a França do século XV) para generalizar a manchete de capa, que “A Idade Média era uma Festa”. Outra crítica possível é 0 anacronismo declarado na comparação entre o lazer da Idade Média e o lazer do homem moderno. Anacronismo que por sinal os próprios defensores da Idade Média usam como argumento contra aqueles que analisam as cruzadas ou a inquisição com o olhar do homem do século XXI.
Porém, eu posso dizer com toda a convicção que o o grande mérito da História Viva foi a tentativa de desconstrução de uma grande onda de difamação e ignorância acerca da Idade Média. Isso fica patente no trecho:
“Na Idade Média não havia férias nem feriados na forma como conhecemos hoje, mas nem por isso as pessoas da época deixavam de ter um calendário rigoroso, com datas em que o trabalho dava lugar à diversão. É verdade que as festas eram essencialmente religiosas, mas essas celebrações não tinham nada de austeras. Muito pelo contrário: nelas reinava um impressionante clima de liberdade, que contrasta completamente com a ideia de uma ‘Idade das Trevas’”.
É interessante notar que a justificativa dessa mentalidade, como bem explica a própria revista, é o fato de principalmente os historiadores iluministas, inebriados pelo discurso racionalista e materialista, resolverem ao longo dos últimos séculos jogarem mil anos de história numa vala comum. A revista trata apenas da questão do calendário litúrgico que durante a Idade Média agendava toda a rotina da população, independente da classe, em torno de festas e celebrações. Em se tratando de Idade Média, haveria ainda muita coisa factual que certamente mitigaria e muito o discurso da Idade das Trevas.
A primeira grande sacada da revista foi uma tentativa de desconstruir uma mentira que para muitos tornou-se verdade; a segunda foi a percepção de que ainda que o homem moderno tenha mais conforto, uma comunicação mais eficiente e até viva mais, perdeu-se a noção dos limites a que esses “progressos” podem chegar. Basta olhar o exemplo da mulher moderna: trabalha 40 horas para sustentar um filho que não vê, de um homem que nunca quis assumir a paternidade, numa casa que só vive bagunçada.
Não se trata de pregar aqui o abandono das conquistas da mulher, seja no mercado de trabalho, seja na sociedade. Trata-se de tomar seu exemplo para percebermos que nem tudo que vem dos progressos pode ser tido como bom. Luta-se tão exageradamente para ter uma vida confortável que quando colocamos na balança, verificamos que o ônus não supera o bônus. É o que explica esse trecho da revista:
“Quando se examina o ritmo de trabalho anual, é notável a quantidade de festas que representam dias não trabalhados, de modo que, dos 365 dias do ano, cerca de 190 eram inteiramente dedicados à pr0dução, e outros 60, mais ou menos, eram de jornada reduzida. No total, trabalhava-se cerca de 20 dias por mês”.
E por que qualquer pessoa sensata que lê isso acharia a Idade Média uma maravilha? Porque na minha opinião está se confirmando a tese que diz que tudo na história é pendular. As pessoas hoje em dia buscam cada vez mais diminuir suas cargas-horárias, estão viajando mais, enfim, buscando mais tempo de lazer. Se disséssemos que estamos voltando para a Idade Média, estaríamos simplificando as coisas. Não é bem assim. O fato é que muitas vezes o conhecimento do passado pode nos ajudar a atingir uma maturidade muito mais saudável e decente.
O mais importante para quem tiver a curiosidade de ler a revista é pensar nela não como uma compilação de artigos assentados em bases científicas, mas como uma oportunidade para a discussão. Ao falarmos de Idade Média, parece que tudo na ciência se dogmatiza: viviam todos em estado de permanente lamúria por conta da opressão da Igreja, as ciências foram banidas para dar lugar à fé alienadora e por aí vai. Aumenta, no entanto, um movimento de reabilitação da Idade Média. Uma reabilitação que no fim acaba sendo uma verdadeira iluminação para o homem, no sentido de despir-se de preconceitos arcaicos em busca da verdade pura e simples.





