
Gostaria de destacar dois campos, nos quais deve fazer-se ainda mais solícito o vosso empenho missionário. O primeiro é o das comunicações sociais, em particular o mundo da internet. Como tive já oportunidade de dizer-vos, queridos jovens, “senti-vos comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais assenta a vossa vida! [...] A vós, jovens, que vos encontrais quase espontaneamente em sintonia com estes novos meios de comunicação, compete de modo particular a tarefa da evangelização deste ‘continente digital’”. Aprendei, portanto, a usar com sabedoria este meio, levando em conta também os perigos que ele traz consigo, particularmente o risco da dependência, de confundir o mundo real com o virtual, de substituir o encontro e o diálogo direto com as pessoas por contatos na rede.
(Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude, 18 de outubro de 2012)
Estive pensando, a Igreja tem proporcionado um momento de grande impulso missionário para os católicos. Tanto por ocasião do Ano da Fé quanto pela iminente Jornada Mundial da Juventude que se aproxima, é sabido que o papa deseja uma ação articulada dos fiéis. A internet, como podemos perceber na mensagem acima do papa para os jovens é esse novo areópago onde é possível e recomendável falar do Jesus que toca e transforma a nossa vida.
Dentro da internet, as redes sociais ocupam um lugar especial nessa nova ação missionária da Igreja. Que os católicos estão nesses meios, é evidente. Porém, a participação do clero é geralmente escassa e nem sempre tão eficaz. As páginas desses padres e bispos mais famosos são, em geral, gerenciada por assessores, sem muita pessoalidade e distinção. Não nos esqueçamos: nesse meio, como no mundo é muito fácil ser apenas mais um. Como sabemos, não basta postar passagens do evangelho ou mensagens positivas. Para isso, há usuários leigos (e nem sempre católicos) que dão um show de bola nos nossos pastores. Para ser diferencial nessa massa, é preciso dar a cara a tapa: rezar, pensar e postar.
Vamos aos exemplos: a página do padre cantor Marcelo Rossi, que há anos aparece nos maiores meios de comunicação social do nosso país e que recentemente construiu o maior templo católico da América Latina, possui pelo menos três perfis públicos no Facebook. Um deles, em espanhol, possui 284 mil “curtidas”. Eu não sei ao certo se ele chega a ser famoso em países hispânicos, mas desconfio seriamente que, pelo fato de esse ter sido o primeiro perfil criado (antes mesmo do oficial), o povo piedoso oficializou o perfil criado por um devoto hispânico que, por consequência só posta em espanhol. Imagino que as velhinhas que amam o padre da “aeróbica de Jesus” devem achá-lo muito douto por postar tão bem numa língua que, para elas nem sempre é muito clara. O segundo perfil, que poderíamos considerar oficial, por apresentar o conhecido nick “Vc no colo de Jesus”, possui 138 mil “curtidas”. Ao analisarmos o conteúdo postado no perfil, sinceramente, eu diria que são pérolas jogadas aos porcos. A simples postagem “>>>FÉ & ORAÇÃO<<<” foi compartilhada por incríveis 560 pessoas! O que ele disse de tão especial, afinal? O terceiro perfil é biográfico. Não há postagens. Recebeu 273 mil curtidas.
Outro padre famoso, o Fábio de Melo, recebeu 524 mil “curtidas” em seu perfil no Facebook. Mais próximo de perfis como o de Lady Gaga (53 milhões de “curtidas), este perfil apresenta aos fiéis detalhes da agenda de shows, vídeos de bastidores, entrevistas em programas de TV, etc. No entanto, novamente aqui verifica-se a impessoalidade produzida pela assessoria do padre. Por exemplo: “Padre Fábio de Melo lança em breve seu novo álbum de músicas religiosas, “Estou Aqui”! Neste lançamento, pela primeira vez na carreira Padre Fábio vestirá paramentos litúrgicos em comemoração dos seus 10 anos como sacerdote.” Os fiéis que buscam as mensagens adocicadas tão características do padre como “não podemos admitir é que nosso discurso religioso possa ferir a dignidade humana”, imagino que se sentem um pouco abandonados, não tendo mais que a agenda de um cantor famoso para compartilhar com seus amigos.
Padre Reginaldo Manzotti, outro famoso clérigo brasileiro, segue de perto os passos de seu colega Fábio de Melo. Com 117 mil “curtidas, em seu perfil há postagens sobre apresentações em programas de TV e fotos de eventos. Porém, ao que parece, Manzotti é o próprio produtor de conteúdo da página. Podemos encontrar mensagens do papa Bento XVI nem sempre com uma formatação impecável, vocativos como “filhos” ou comentários a passagens do Evangelho como a de II Cor 4, 8-9, “Para você que hoje está passando por provações: Deus é a nossa força!”. O mais interessante dessa página é a descrição, o mote estampado no topo da página: “Padre Reginaldo Manzotti – O padre que reúne multidões!”. É difícil se identificar com um padre que te vê como multidão, pelo menos para mim.
E quanto ao episcopado? Em termos cardinalescos, temos Dom Odilo Pedro Scherer com apenas 2.175 “curtidas” e Dom Damasceno de Assis com 0 “curtidas”. Bispos que ficaram famosos pela afinidade com o conservadorismo como Dom Antonio Carlos Rossi Keller e Dom Henrique Soares da Costa, possuem, respectivamente, 11567 e 8738 “curtidas”. Já o Bispo anfitrião da Jornada Mundial da Juventude, Dom Orani Tempesta, não possui um perfil de figura pública (que recebe “curtidas”), mas um perfil pessoal com 5127 amigos. Quanto ao chamado bispo “referencial” para a juventude, Dom Eduardo Pinheiro, eu não encontrei um perfil no “Face”.
Para termos uma base de comparação, além da supracitada Lady Gaga (53 milhões de curtidas), poderíamos lembrar de Rihanna (62 milhões de curtidas), Katy Perry (48 milhões de curtidas), Justin Bieber (47 milhões de curtidas), Britney Spears (21 milhões de curtidas). Em termos de Brasil, Luciano Huck possui 7 milhões de “curtidas” e Rafinha Bastos (que falou que comeria a cantora Wanessa e seu bebê), possui 781 mil “curtidas”, só para citar alguns exemplos. No âmbito religioso protestante, temos a cantora/pastora da banda “Diante do Trono”, Ana Paula Valadão, com 520 mil “curtidas” e o pastor Silas Malafaia com 224 mil “curtidas”.
O Facebook é hoje a maior rede social do planeta, com quase 1 bilhão de usuários no mundo. Se compararmos essa população mesmo com perfis bastante “curtidos” como o de Lady Gaga, talvez ainda não estejamos tão bem preparados para usufruir das potencialidades dessa ferramenta. Bento XVI tem enfatizado de forma clara a necessidade de evangelização pela internet porque sabe que há falhas e atraso no anúncio virtual. Talvez o número de “curtidas” não seja a maior preocupação em termos de evangelização. O perfil oficial do Padre Marcelo está aí para servir de exemplo nesse contexto. Muito mais importante, na minha opinião, é a pessoalidade, a relevância e a periodicidade das postagens. O fato é que temos em nossas mãos uma mensagem muito mais poderosa, eficaz, bela, incrível, que todos as milhões de “curtidas” que a indústria da música poderia representar. Resta-nos, talvez, reconhecer, como o profeta Jeremias, que nesse meio “somos crianças e não sabemos falar”. E assim, pedir sabedoria e inspiração para fazermos de nossa atuação na internet um verdadeiro apostolado como pede o nosso papa.
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