Eu mesmo já estou cansado de tocar nesse tema, confesso. Não precisa nem ser católico para entender que uma norma disciplinar, seja ela de qualquer instituição, precisa ser cumprida. Engraçado que muitos pregam esse tema de forma apaixonada: ou usa a batina ou não é bom padre. Ora, as coisas são muito mais complexas que isso, já sabemos. Porém, existem alguns pontos minimamente razoáveis, que se não convencem pelo que são, ao menos que se convença pela insistência. Nesse fim de semana tive a oportunidade de conversar com um padre sobre esse mesmo assunto. Isso me levou a esse artigo, que nada mais é que um sumário rápido das razões pelas quais se deve usar a veste clerical. Peço-vos perdão se estou sendo repetitivo, mas, vez ou outra, temos que dar uma de chatos, pois só assim a coisa entra na cabeça de alguns:
O primeiro ponto que devemos lembrar em defesa da batina é quanto ao seu caráter distintivo. Desde o antigo testamento existiam aqueles que eram separados, diferentes, singulares pela missão que deveriam exercer em relação aos demais. Deus escolheu dentre o povo de Israel um grupo – a Tribo de Levi – para oferecer sacrifícios e prestar serviços religiosos em nome do povo. No livro do Êxodo, Deus institui, por meio de Moisés, as vestes distintivas dos sacerdotes da Tribo de Levi: “Eis as vestes que deverão fazer: um peitoral, um efod, um manto, uma túnica bordada, um turbante e uma cintura. Tais são as vestes que farão para teu irmão Aarão e para os seus filhos, a fim de que sejam sacerdotes a meu serviço (Ex. 28, 4). E enfatiza no mesmo livro a razão destas vestes distintivas: “Farás [...] vestes sagradas em sinal de dignidade e de ornato”. (Ex. 28, 2). Muitos insistem em dizer que o sacerdote católico deve desprezar qualquer sinal distintivo para poder se aproximar do povo, mas, a pergunta que não quer calar é: quem disse que para se aproximar do povo é necessário fazer-se igual ao povo?
O segundo ponto que vale chamar a atenção em relação à batina é o seu simbolismo. Comecemos pela cor. Sabemos que há na Igreja uma corrente muito forte na Igreja que despreza termos como “pecado”, “sofrimento”, “sacrifício”, “cruz”, substituindo-os por antônimos mais positivos. O negro da batina para os representantes dessa corrente representa todo esse legado negativista que se busca evitar. No fundo há uma inversão cromática, às vezes inconsciente: para eles as cores e luzes estão nas coisas da terra e o negro nas coisas celestes. No entanto, sabemos que a lógica testemunhada por Cristo é bem outra: todos os prazeres desse mundo tornam-se nada, irrelevantes, opacos diante do brilho daquela Luz pela qual optamos. O negro da batina, portanto, simboliza não a morte para o mundo (pois tudo o que Deus faz é bom), mas a morte para os vícios e prazeres a qual todo cristão está chamado. Assim, o negro da batina é um lembrete de que todos devemos morrer para esses prazeres e vícios e voltarmo-nos para os bens celestes. Além disso, toda batina possui 33 botões ao longo de seu comprimento e mais cinco botões nos punhos representando as chagas de Cristo. Por fim, há ainda o colarinho branco representando a pureza e a castidade.
O terceiro ponto que devemos lembrar é que a Igreja visível, a presença de Deus no mundo se manifesta por alguns instrumentos acidentais/exteriores. Dentre outros, podemos citar os templos, os ritos, a música e as vestes clericais. Obviamente continua existindo Igreja sem batina, sem igreja (templo), sem muitas dessas coisas que visualmente a identificam. No entanto, é um alento para os fiéis serem lembrados vez ou outra que em meio a tantas dificuldades desse mundo a Igreja, como mãe, se aproxima de nós de alguma forma. Imagine a situação: um jovem brigou com os pais, foi expulso de casa e resolveu vagar pela cidade para “esfriar a cabeça”. De repente, ao ver um sacerdote de batina, lembra-se de Deus; lembra-se que apesar de o mundo estar desmoronando sobre si, Deus veio até ele de alguma forma. Como seria diferente se, noutro caso, o padre em questão estivesse à paisana…
O quarto ponto, o qual vocês já devem estar cansados de ouvir é, talvez, o maior de todos os motivos para que um sacerdote use veste clerical: a lei da Igreja manda que se use. O não-uso da veste clerical tornou-se, infelizmente, sinal de divisão dentro da Igreja. Ora, o soldado que faz uso de suas funções sem o devido fardamento não seria no mínimo um desobediente? Por que com o sacerdote seria diferente? Em quem teríamos mais confiança: num policial não fardado que oferece-nos uma carona no meio da estrada ou num policial fardado? De modo semelhante, em quem você sentiria mais confiança para revelar seus segredos mais íntimos: num padre vestido como tal ou num padre com a camiseta do Flamengo e bermuda jeans? Por favor, amigos, isso não tem nada a ver com julgamentos pessoais. Sabemos que o hábito não faz o monge, mas não podemos negar que esse hábito é sinal de obediência, de fidelidade, de luto como dissemos, de simplicidade, de consagração enfim, de muitas coisas que a roupa laical não é.
Por fim, levantemos ainda um quinto ponto: a veste clerical não é nenhuma bandeira ideológica, seja de um tradicionalismo nostálgico que pretende reimplantar a alta Idade Média em pleno século XXI, seja de uma classe autodenominada conservadora em oposição ao lado progressista da Igreja. Não é nada disso. A veste clerical é pura e simplesmente uma coerência e um assentimento com o que se quer seguir. Quando um sacerdote diz o seu “sim”, não pode voltar atrás…não pode querer implantar vácuos laicais dentro da vida clerical. Por exemplo quando quer “fugir” dos fiéis, tirar uma folguinha para ir ao cinema e não ser visto. O raciocínio nesse caso é simples: onde não convém usar batina, não convém que o sacerdote esteja presente. Simples assim. Por isso se diz que essa é a cruz do sacerdote. Como o Cristo, convém que ele carregue essa cruz até o último momento, não havendo pausas para o cafezinho na calvário. Se vale para todos os fiéis, ainda mais para os sacerdotes: “Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus (Mt 10, 32).
Se pudéssemos resumir os pontos levantados, diríamos que a veste clerical, em especial a batina, é distintivo, pois os sacerdotes fazer parte de uma porção separada do povo de deus; é catequese por meio de cada significado nela presente; é símbolo da Igreja visível no mundo; é obediência à lei da Igreja; é ainda uma profissão pública de fé. Mais uma vez, nossa intenção não foi inovar sobre o tema, mas vez ou outra, a nossa experiência particular nos leva a voltar a determinados assuntos que mais do que nunca se tornaram uma questão de ordem eclesial.





