Não é à toa Europa é conhecida como “O velho continente”. Os europeus carregam uma gloriosa tradição de cultivar grandes e boas bibliotecas. Elas começaram primeiro nos mosteiros, passaram a ser sinônimo de poder e ostentação e por fim serviços de informação pública. Falar em biblioteca pública aqui no Brasil é uma coisa meio inócua, pois, apesar de termos recebido um importantíssimo acervo de presente em 1810 do Trono português, não cultivamos o espírito ilustrado que fez pulular diversas bibliotecas pela Europa. Nossas bibliotecas públicas podem ser definidas assim: “depósitos públicos de livros velhos e desatualizados, normalmente gerenciado por técnicos em biblioteconomia”.
A realidade nua e crua é que quem visita uma biblioteca como a Ambrosiana em Milão, vive da nostalgia de um passado que nunca nos atingiu. Encontrei um texto que resume mais de 500 anos de história das maiores bibliotecas públicas do mundo (nossa primeira biblioteca pública data de 1811) chamado First Modern Libraries in Europe. A diferença dessas bibliotecas para as brasileiras é apenas uma: a valorização da preservação histórica por parte dos governantes. Enquanto lá todas as grandes coleções foram compradas pelos governos, as daqui foram sistematicamente debulhadas e vendidas em sebos por preços irrisórios. É bom para aprendermos como se faz:
Biblioteca Bodleiana – a primeira biblioteca pública da Inglaterra, gravura de 1675
As bibliotecas públicas modernas que emergiram da urbanização trazida ela Revolução Industrial durante o século XIX, possuem sua origem nas bibliotecas reais, nacionais e acadêmicas do século XVII. Antes do período da Renascença, as bibliotecas na Europa eram constituídas de acervos privados de reis, nobres, cardeais, de pessoas abastadas, assim como das poucas coleções advindas das universidades. Tais acervos germinaram especialmente depois que Johann Gutenberg inventou a prensa com tipos móveis por volta de 1440.
Nos 150 anos seguintes, métodos mais aprimorados de registro e transmissão do conhecimento em voga, conduziram a um aumento no modo como o conhecimento era usado , analisado e produzido nas ciências naturais, ciências sociais, filosofia, arte, literatura e na política. Transcendendo o abismo de pontos de vista entre a Igreja Católica e as diversas denominações protestantes que surgiram da Reforma, o humanismo, espírito inquiridor dos tempos, demandou repositórios novos e mais amplos para os seus livros e outros produtos escritos e artísticos. Estas novas bibliotecas contribuíram para a solidificação dos ganhos culturais e para a promoção de progresso intelectual e artísticos adicionais.
O Duque Alberto V da Bavária, um proeminente patrono dos intelectuais, artistas e músicos, fundou a Biblioteca da Casa de Wittelsbach em 1558, como uma casa adornada para a sua prolífica coleção de livros. Outros nobres ricos que sentiram que precisavam competir com ele seguiram o seu exemplo. Esta tendência dos aristocratas de estabelecerem bibliotecas estava em plena vapor quando Thomas Bodley, aluno de Oxford, durante os seus anos de estudante por volta de 1570, notando a falta de uma biblioteca respeitável em Oxford, em 1598 começou a coletar, doar dinheiro e planejar a instalação da alma mater de uma grande biblioteca. A biblioteca de Oxford anterior, organziada pelo filho do rei Henrique IV, o duque Humphrey de Gloucester, datava de cerca de 1440, mas foi quase toda perdida por volta de 1550 em razão da combinação de falta de cuidado e de censura religiosa. Bodley queria substituí-la por uma biblioteca pública aberta a todos os que estivessem associados de alguma maneira à universidade. Ela foi oficialmente aberta como a Biblioteca Pública de Oxford em novembro de 1602. Rapidamente ela passou a ser conhecida como Biblioteca Bodleiana, a Bodley ou apenas a Bod.
Em 1610, Bodley conseguiu que a biblioteca recebesse uma cópia gratuita de cada título registrado no Salão dos Papeleiros (Stationers’ Hall), lançando as bases assim para o depósito legal e, por conseguinte, o conceito de copyright. O depósito legal foi impulsionado principalmente em 1634 quando o Sacro Imperador Romano Ferdinando II decretou que uma cópia de cada livro publicado no Sacro Império Romano ou exibido na Feira do Livro Anual de Frankfurt fosse enviado à Biblioteca da Corte dos Habsburgos em Viena. A biblioteca da corte em Viena existia desde o século XIV, mas essa mudança que obrigava o depósito legal gerou o início do que mais tarde se tornaria a Biblioteca Nacional da Áustria.
Várias outras bibliotecas nacionais na Europa surgiram por volta dessa época. A Biblioteca Real Sueca sob a rainha Christina tornou-se uma das maiores coleções na Europa, mas quando ela abdicou do trono e saiu do país em 1654, decidiu levar a biblioteca com ela. Muito dessa coleção se dispersou, mas a maior parte incorporou-se à Biblioteca Apostólica do Vaticano em 1690. O que ela deixou para trás na Suécia foi reorganizado em 1661 e essa biblioteca fora designada como depósito legal nacional. No entanto, em 1696 um incêndio destruiu a maior parte dessa biblioteca. Esta não foi recomposta até por volta do século XIX.
A Academia de Turku na Finlândia estabeleceu sua biblioteca em 1640. Depois e um incêndio catastrófico em 1827, a faculdade foi transferida para a nova capital finlandesa, Helsinki, e desde então a Biblioteca da Universidade de Helsinki tem sido reconhecida como biblioteca nacional. Em 1653, o rei Frederico III estabeleceu a Biblioteca Real da Dinamarca, que evoluiu por meio de uma série de fusões e aquisições até chegar ao que hoje é a biblioteca nacional. Em Paris, no ano de 1692, a biblioteca real que datava do século XIV, foi aberta ao público pela primeira vez. Este foi o primeiro passo para o que mais tarde se tornaria a Bibliothèque Nationale de France.
Como um componente importantíssimo da Contra-Reforma católica no final do século XVI e início do século XVII, vários papas apoiaram iniciativas de progresso intelectual e cultural. A fundação da Biblioteca Real do Mosteiro El Escorial, em 1575, em Madri e a refundação da Biblioteca Vaticana em 1588 eram parte desse movimento.
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La Biblioteca Angelica, fundada em Roma por Angelo Rocca, é geralmente reconhecida como a primeira biblioteca verdadeiramente pública do mundo moderno. Sua predecessora, a biblioteca do convento de Santo Agostinho, coletava livros e manuscritos desde 1328. Por volta de 1590, o novo diretor da biblioteca do convento, Rocca, que tinha ficado responsável pela imprensa papal, traçou um rumo completamente diferente para a biblioteca. Ele acumulou e doou cerca de vinte mil volumes que enriqueceram suas coleções depois abertas ao público provavelmente em 1604 (algumas fontes dizem 1614).
Outros líderes católicos seguiram o exemplo de Rocca. O arcebispo de Milão, Federico Borromeo, influenciado tanto por Rocca quanto por Bodley, comprou a gigantesca biblioteca estatal de Gian Vincenzo Pinelli em 1608, comprou um majestoso espaço para abrigá-la e assim fundou a Biblioteca Ambrosiana como biblioteca pública em 1609. Ainda hoje essa permanece sendo uma das maiores bibliotecas na Itália.
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Alguns dos mais importantes repositórios de informação da Igreja começaram como bibliotecas de ordens religiosas. Os mais ativos nessa área eram os jesuítas. Em 1622 eles transferiram a coleção da Charles University em Praga para o seu próprio Klementinum, cuja biblioteca evoluiu, com acréscimos, para a Biblioteca Nacional da República Checa. Além disso, uma biblioteca jesuíta acompanhou a fundação da Universidade de Malta em 1592, mas muito da sua coleção foi perdida por conta da expulsão dos jesuítas de Malta em 1768, do fechamento da universidade em 1798 e de diversas guerras, incluindo a Segunda Guerra Mundial. A Biblioteca Nacional de Malta teve a sua origem em 1649, quando seu edifício fora erigido em Valleta para os livros da Ordem de São João de Jerusalém, a qual coletava livros desde 1555.
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O pensador protestante mais celebrado durante o século XVII que estava envolvido com o desenvolvimento de bibliotecas era Gottfried Wilhelm Leibniz. De 1676 até a sua morte ele assumiu diversos cargos à serviço da Casa de Hannover, incluindo o de bibliotecário pessoal dos duques de Brunswick-Lüneburg e a partir de 1692, de bibliotecário geral da Bibliotheca Augusta em Wolfenbüttel, Alemanha. Sua habilidade e visão em coletar, organizar, catalogar e gerenciar bibliotecas ficou tão conhecido pela Europa que os maiores bibliotecários católicos da época seja do Vaticano, de Paris e provavelmente de Viena, ofereceram a ele cargos de diretoria. Ele recusou todos, pois não queria se converter. Infelizmente a maior parte das suas sugestões, apesar de baseadas em claros instintos bibliográficos e preservacionistas, foram ignorados no começo do século XVIII quando os duques mudaram e reorganizaram a Bibliotheca Augusta.
Importância
Muitas das bibliotecas europeias fundadas antes de 1700 permanecem dentre os repositórios mais importantes do mundo. A Biblioteca da Corte de Wittelsbach evoluiu para as Bibliotecas Estatais da Bavária, que guarda a maior coleção de incunábulos (ou livros publicados antes de 1501) do mundo. Com 19.900 cópias de 9.660 edições, esta coleção abriga quase 1/3 de todos os incunábulos conhecidos. A biblioteca Bodleiana possui mais de 7 milhões de volumes, incluindo 7.000 incunábulos e 170.000 manuscritos. As outras bibliotecas que sobreviveram possuem coleções de incunábulos e manuscritos menores, porém especializadas, com valor de pesquisa excepcional. Juntas, todas essas bibliotecas fornecem recursos da Iluminação que emergiu do século XVIII.




























