O cinema nacional tem apresentado ao público uma sequência de biografias de ilustres brasileiros nos últimos anos. A de Zezé de Camargo e Luciano (2005), a do Lula (2009), a de Chico Xavier (2010), são só alguns exemplos dentro da temática “Filhos do Brasil” que, na verdade, trata-se de um resgate (articulado ou não) da cultura brasileira.
Nesse contexto, tive a grata oportunidade de assistir a bons filmes que falam da nossa música, do nosso povo, das nossas paisagem, nos últimos tempos. Eu poderia citar ainda “O Palhaço”, com Selton Mello e “À beira do caminho”, dos quais já falei um pouco a minha impressão aqui no blog.
Em se tratando da biografia de Gonzaga, o rei do baião, eu diria que há uma retomada dos elementos que dão cor ao Brasil: a cultura regional, a alimentação, o sotaque, a música, etc. Confesso que depois de assistir a outras biografias, fiquei com a ligeira impressão de estar vendo uma fórmula pouco original de garoto sofredor que dá a volta por cima e conquista o Brasil com algum talento especial, mas eu sempre digo que brasileiro é muito “bobo” (e por isso talvez tão feliz com a vida): ele consegue descobrir o fantástico por meio de elementos triviais. Não vê o exemplo de Chaves, que há tantos anos continua emocionando e dando audiência? Pois bem, eu gostaria de destacar alguns pontos altos da história “de pai para filho” que vão muito além da difícil relação entre os dois.
A primeira cena marcante do filme para mim foi a que mostra Gonzaga, com uns vinte e poucos anos, levando uma surra da mãe por ter enfrentado um “coronel”. Em tempos de crianças de 14 anos que batem em professores por conta de uma nota baixa, ver um homem apanhando pacificamente da mãe, com todo o respeito que deve à mulher que lhe criou, é um grande exemplo. Ainda mais se compararmos esse modelo de educação com a que o próprio Gonzaga dá a seu próprio filho (distante, fria e complacente). Na tentativa de dar tudo o que não teve para o filho, Gonzaga acabou mimando-o, estragando-o, criando nele toda sorte de traumas que mais para frente foram prontamente “jogados na cara” do pai. A dualidade dos dois modelos de educação, talvez seja a nota mais evidente e mais preciosa do filme, especialmente para os opositores da palmada.
A religiosidade popular é outro ponto de destaque no filme. Nas primeiras cenas aparece a casinha da família de Gonzaga, no meio do sertão pernambucano, cheia de devotos rezando “A nós descei, divina luz”. Num contexto quase unânime de pessoas que rezavam para suprir a distância quilométrica de suas casas para a igreja mais próxima. Talvez os católicos que se denominam como tal, mas não frequentam a igreja (do lado de casa), nem rezam uma dezena do terço por dia, devessem sentir certa vergonha dos nossos antepassados. Ora, muito possivelmente, no dia do Juízo, Jesus pegará uma família bem devota dessas e a coloque para nos julgar. Fiquei refletindo no quanto eles eram felizes porque, apesar das dificuldades, eles tinham Deus como amigo e muitas vezes nós nos enganamos com uma religiosidade “de herança” que quando muito serve apenas para preencher formulário do IBGE.
O perdão também deve ser lembrado, pois é uma linha que costura todas as cenas de “Gonzaga”. Desde as estripulias do menino que queria se casar com a filha rica do Coronel até o pedido de seu filho Gonzaguinha, pareceu-me muito bela a mensagem de reconciliação e pacificação de conflitos entre os personagens. É uma demonstração de que o perdão, muito mais que um preceito religioso, é uma questão de justiça, pois quem uma vez foi perdoado (os pais que perdoam Gonzaga por seus erros), também precisa perdoar (Gonzaga que perdoa o filho Gonzaguinha por não respeitar a autoridade do pai). É claro que outras histórias ficaram mal resolvidas (carecidas de perdão), como na relação de Gonzaguinha com a madrasta Helena, por exemplo, mas não me pareceu que o “cabra macho” nordestino estivesse tão absorto em seu orgulho que não estivesse disposto a ver o benefício desse ato para o resultado final da pintura da vida.
Quanto à música, confesso que fui ao cinema com apenas uma na cabela, a épica “Asa Branca”. O filme mostra, porém, que há todo um patrimônio musical por traz do nome Gonzaga. Ao final, nos créditos, diz-se que ele lançou mais de 200 discos! Muitas vezes eu (e muita gente, imagino), quis levantar-se da cadeira e sair dançando no cinema. É incrível isso, gente. Se o 3D consegue te proporcionar uma sensação de realidade e de proximidade com a cena, eu não sei bem descrever o que o forró (ou baião) provoca, mas é uma sensação emocionante. Você realmente se segura para não pegar a moça do lado e aproveitar o espetáculo do chorar da sanfona.
Mas, afinal, se “Gonzaga: de pai para filho” é tão parecido com outras biografias de “Filhos do Brasil”, por que eu deveria ir ao cinema dessa vez? Creio que a resposta seja bem simples: para que você se encontre na tela. Você pode até não ser nordestino, não ser pobre, não ser negro ou não gostar de forró, mas há uma coisa ali que liga toda a rede de brasileiros espalhados pelos mais diferentes estados do país: seu nome é cultura. Como dissemos no início, a cultura brasileira tem sido exaltada nos cinemas de forma magnífica nos últimos anos. Para quem acredita que essa é uma tendência totalmente oposta ao que se pratica fora daqui, muito se engana. Afinal, por que a guerra civil norte-americana, que todo ano é vendida sob um enfoque diferente, tem que ser mais importante que as guerras separatistas brasileiras, por exemplo?
Há uma antiga história (muito provavelmente não é verdadeira) que diz que o termo “Forró”, vem do inglês “for all”, para todos. E é bem isso que o filme traduz ao mostrar que, diferentemente do que se pensa, houve uma época em que era “chique” gostar de forró. Com letras simples, mas carregadas daquela cultura centenária que a tradição popular foi transmitindo, vemos que o forró, tanto quanto a MPB, é digno de ser louvado como parte importante da nossa cultura. É uma boa pedida, principalmente para aqueles que, como eu, vão descobrir outros horizontes nesse universo que vão além de bandas com nome de calcinha.







