“Saga Crepúsculo” “Vampire diaries”, “True blood”, etc. São muitos os exemplos de filmes, séries e livros animados em contar uma nova boa história de vampiros. Essa temática clichê normalmente me afasta de novos lançamentos que quase sempre mostram-se mais do mesmo. Nesse contexto, tive que ir ao cinema para passar o tempo nesta semana e a opção mais viável foi justamente um filme de vampiros: “Abraham Lincoln, caçador de vampiros”.
Pense: juntar um personagem histórico com vampiros que provavelmente brilhariam ao sol ou teriam medo de alho nunca poderia dar certo…mas eu confesso que fui bem surpreendido. O filme em si é cheio de simbolismos, aforismos morais e imagens bíblicas. O que o retira automaticamente do saco de histórias fúteis de vampiros que se apaixonam por humanos e vivem o drama de transformar ou não o objeto amado em vampiro.
Abraham Lincoln, Caçador de vampiros trata de um questionamento espinhoso do papel que queremos e podemos exercer nesse mundo. Abraham ainda menino desafiou as regras sociais de seu tempo para salvar um coleguinha negro em apuros. Essa cena aparentemente banal talvez tenha moldado o caráter do grande presidente que aboliu a escravidão nos Estados Unidos.
Noutra cena ele se depara com a mãe sendo assassinada por um vampiro dentro de sua própria casa. Abraham cresce então com a ideia fixa de vingar a morte de sua mãe. É aí que ele se depara com um caçador de vampiros, Henry, que lhe ensina técnicas eficazes na luta contra esses seres do mal. Porém, o grande ensinamento de Henry foi uma frase que me marcou muito: “O verdadeiro poder não vem da vingança, mas da verdade”.
Abraham não desiste de sua vingança tão facilmente. Continua com o projeto de derrotar vampiros infiltrados na sociedade, mas isso não o impede de perceber que possui outros talentos. Um deles, o carisma, levou-o à política. Ainda que soubesse que os vampiros continuavam à solta, Abraham resolveu dedicar seus esforços à definitiva abolição da escravatura que dividia o país. Pareceu-me uma interessante metáfora do combate espiritual caminhando ao mesmo passo do combate aos males temporais.
Dentre as diversas imagens simbólicas que o filme transmite uma é que certo vampiro sugere que humanos de coração puro não poderiam ser transformados em vampiros. Ainda assim o filme relata que os vampiros estão em todo lugar – “até mesmo nas igrejas”. Essa imagem é significativa, pois segundo a doutrina católica a morte é consequência do pecado. Logo, aqueles que preferem o pecado à pureza de coração estão fadados à morte eterna como a dos vampiros.
Outra imagem interessante é a da prata. A prata tornou-se objeto detestável para os vampiros, pois foi com 30 moedas de prata que Judas traiu Cristo. Assim, ainda que a prata fosse um símbolo de traição, converteu-se num símbolo da vitória de Cristo sobre a morte, pois com a traição de Judas veio a Crucificação e por fim a Ressurreição. Portanto, detestável para as forças do mal. Claro que o filme não explica nada disso, mas foi o que consegui deduzir.
É clara também a mensagem moral do filme e parece que foi retirada diretamente dos escritos de Madre Teresa de Calcutá: “O bem que você faz hoje, poderão esquecê-lo amanhã. Faça o bem assim mesmo!”. A luta do bem contra o mal é a grande mensagem de fundo. É relevante notar, porém, que essa luta começou no ostracismo da tentativa de Abraham de salvar o amiguinho em apuros e terminou nos altos escalões do poder. Nas palavras de um dos personagens: “Plante seus pés e fique firme. A questão é saber aonde pôr os pés”.
Por fim, ao que parece, Abraham Lincoln não procurava fama, notoriedade ou poder. Todos os esforços que ele fez, especialmente na luta contra os vampiros, ficaram na obscuridade ainda que ele viesse a ser conhecido como o maior dos presidentes abolicionistas. A frase que inicia e que termina o filme traduz bem o fato de que estamos destinados a fazer grandes coisas, mas que o nosso sucesso não depende do reconhecimento da história, mas Daquele a quem vamos prestar contas um dia:
“A história prefere lendas a homens. Ela prefere nobreza à brutalidade; vozes elevadas a atos silenciosos. A história lembra-se da batalha, mas esquece-se do sangue derramado. Ainda que a história lembre-se do homem que eu fui antes de ser um presidente, ela só se lembrará de uma fração da verdade…”
É um excelente filme que faz eco da missão de muitos que fizeram grandes coisas sem o reconhecimento público que a sociedade de hoje tanto aprecia. Mais que um filme boboca de vampiros, é um filme de grandes homens que, como disse certa vez Madre Teresa, fizeram as pequenas coisas com muito amor.












