Como dito há algum tempo atrás, mais uma vez tive a oportunidade de fazer uma peregrinação por alguns lugares santos. Além de participar da Missa do Galo na Basílica de São Pedro, que por si mesmo já é uma graça enorme, pude visitar as cidades de Loreto, San Giovanni Rotondo e Ortona, todas na Itália. Essa viagem como que fechou o ciclo das cidades que conheci em março de 2012, dentre elas Assis, Siena e Pádua.
Ainda que nessas cidades se perceba claramente o culto a algum santo, podemos dizer que tal culto não passa de um reflexo da misericórdia de Deus pela humanidade, manifestada na vida desses homens e mulheres. Portanto, visitei o túmulo dos santos e voltei cheio de Deus, como a samaritana que foi ao poço buscar da Água Viva.
Um ponto geral que chamou a atenção, algo comum entre as três cidades visitadas, foi a falta de estrutura de acolhimento para as peregrinações. Mas eu gostaria de tratar em resumo das minhas impressões sobre cada cidade. Claro, para tanto devemos levar em consideração o fato de que as cidades santas do norte da Itália estão melhores estruturadas, pois as regiões do centro-norte como o Vêneto, a Toscana e o próprio Lazio (onde está Roma) sempre foram mais desenvolvidas e ricas que o Abruzzo que abriga as três cidades que visitei dessa vez.
Loreto:
A primeira coisa que me impressionou foi o fato de a cidade ficar sobre uma montanha. Podemos aceder à cidade por meio da chamada Scala Santa, uma escada enorme com imagens da Via Crucis por todo o percurso maravilhosa para fazer penitência. Essa escada me fez refletir sobre a própria peregrinação rumo ao céu: depois de muito sacrifício, suor e (por que não) até lágrimas, chegamos ao tão almejado objetivo – a presença de Deus. A basílica barroca (com referências renascentistas) é imperdível. Uma obra de arte que passou pelas mãos de Sangallo e Bramante, ambos arquitetos da São Pedro de Roma. Mas como a Santa Maria dos Anjos em Assis, a igreja externa não passa de uma maquiagem para o verdadeiro tesouro, o coração que pulsa no seu interior. A basílica abriga a chamada Santa Casa – o lugar onde a Virgem recebeu o anúncio do nascimento do Salvador do arcanjo Gabriel. A tradição afirma que a casinha foi transportada de Nazaré para essa montanha num tempo em que os muçulmanos passaram a destruir os lugares sagrados da Terra Santa. Ali eu vi uma espiritualidade capaz de quebrar qualquer coração endurecido. É difícil acreditar que você tem a graça de entrar na sala mais importante do mundo (é um quadradinho de 8 x 4 metros e mais, acreditar que o evento mais importante do mundo aconteceu num lugar pobre como aquele. A imagem milagrosa de Nossa Senhora de Loreto – que dizem ter ficado negra pela fumaça das velas dos devotos – é lindíssima. Ali eu rezei o Angelus, pedi pelas intenções que me foram confiadas e o mais emocionante, rezei a Ladainha de Nossa Senhora ou Ladainha Loretana – que surgiu sob inspiração desse lugar santo. Eu passei pouco tempo lá, uns 3 horas talvez, mas foi uma emoção tão marcante que nunca sairá da minha memória. De negativo eu poderia lembrar da falta de opções para comer e do mau gosto dos frades capuchinhos que como em outros lugares santos insistem em fazer reformas totalmente estranhas à composição artística do lugar. Um exemplo claro disso é o altar moderno com figuras abstratas totalmente irreconhecíveis tendo esculturas renascentistas como plano de fundo.
Ortona:
Essa cidade, outrora parte da grande rota internacional de peregrinação durante a Idade Média, está totalmente esquecida hoje em dia. Apesar de ser uma das três únicas cidades de toda a Europa a abrigar relíquias de um dos Apóstolos, São Tomé, parece que nem na própria cidade isso tem relevância. Você desce numa estação de interior, tem que subir a uma montanha como em Loreto, mas não há uma indicação de que aquela cidade contém algo de especial (ex. túmulo do Apóstolo, etc.). A igreja foi para mim uma decepção, poderia ser uma paróquia de qualquer diocese pobre do interior. O túmulo do apóstolo fica numa capela lateral (eu fiquei procurando um tempão no altar principal e só depois descobri que estava numa capela lateral) sem qualquer sombra da reverência dada a Tiago em Compostela e a Pedro em Roma. Além do túmulo mal cuidado do apóstolo, há ainda um castelo medieval bem bonito. Se a Igreja local tivesse interesse, certamente uma parceria com governo e comerciantes dariam um novo ar ao local. Sem precisar ver para crer, peçamos que Deus suscite um novo ânimo para o bispo responsável pelo túmulo do apóstolo. Que o seu coração se encha de um santo zelo para aquele que tocou nas chagas de Nosso Senhor.
San Giovanni Rotondo:
Quando falava de estrutura de acolhimento ao peregrino, eu pensava sobre tudo nessa que é a cidade de São Padre Pio. É um drama chegar nessa cidade e, apesar de estar há poucos minutos de distância, é quase impossível ir e voltar no mesmo dia. Diferente de Assis, Loreto e qualquer outra cidade santa na Itália, não há estação de trem para San Giovanni. Você tem de pegar um trem até Foggia ou San Severo e mais um ônibus até San Giovanni. E não pensem que há muitos trens até Foggia/San Severo, pelo menos não havia para os horários que eu desejava. É impressionante que uma cidade comparável em muitos aspectos a Fátima em Portugal seja tão complicada de se atingir. Eu chamaria San Giovanni de oásis. Há uma mega, super-estrutura no meio do nada. Mas chegando ali é como se toda a dificuldade valesse mil vezes a pena. O ar é diferente. De cara somos surpreendidos com o hospital gigantesco (eu não me lembro de nenhum daquele tamanho aqui em Brasília) construído por iniciativa do santo. Logo em seguida, somos convidados a entrar na bela igreja onde S. Pio celebrava a missa e atendia confissões. Logo ao lado da igreja fica o convento que testemunhou seu último suspiro. Em San Giovanni há um centro de acolhimento bem localizado que disponibiliza diversos materiais (orações, livretos contando a história do santo, mapas, etc) para que você entre de verdade no contexto daquele santo. Como se trata de um santo do século passado, os capuchinhos tiveram o cuidado de documentar tudo – acho que tinha (com o perdão da irreverência) até cuecas do santo em exposição no museu. Isso foi uma coisa que me impressionou e que não vi em nenhum outro lugar. Você se sente muito próximo de São Padre Pio. Especialmente para quem já leu uma biografia ou já assistiu ao filme do santo, tudo ali é muito especial. A graça de poder rezar diante do crucifixo do qual ele recebeu as chagas é indescritível. Devo ainda lembrar que tudo lá é de graça e bem acessível. Eu me senti em casa e voltaria de novo com muito gosto. Tudo está muito bom, está muito bem, mas não poderia deixar de falar da minha grande decepção (que é um interessante paralelo com o que disse sobre Loreto). Os frades construíram uma igreja moderna no estilo “galpônico” tão inconveniente que eu só poderia dizer que eles fariam muito bem em fazer o que os anti-clericais frequentemente recomendam: “vende tudo e dá para os pobres”. Essa igreja que abriga o corpo do santo talvez mais importante do século XX é um espetáculo de dinheiro mal empregado e uma clara ruptura com a arte sacra tradicional. Ali você é obrigado a pensar: ora, não é feia, mas também não é bonita – apenas diferente. Pensamento típico da arte moderna que solapou a beleza universal em favor do valor do choque psicológico que a obra poderia causar. Para esses artistas modernos, quanto mais monumental, chocante e diferente, mais interessante a obra é. Eu fiquei decepcionado, mas logo eu pensei, nada vai apagar a luz que Deus acendeu nesse homem. Desci até a cripta, rezei pedindo a sua intercessão e de repente aquela igreja já não me ofendia tanto. Os motivos para agradecer superavam infinitamente as críticas. Apesar de passar menos tempo que gostaria (por conta do transporte), f0i essa talvez uma das cidades mais maravilhosas que já visitei. Louvado seja Deus em seus anjos e em seus santos!
Eu não poderia deixar de usar esse espaço para agradecer a Deus por tantas bênçãos recebidas no ano passado. Foi tudo muito maior do que eu esperava. Este ano as coisas certamente darão um giro de 180 graus na minha vida, mas nunca vou deixar de pedir que Deus sempre me surpreenda com as suas graças. Manda o que queres e obrigado por tudo, Senhor!

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