Os Escravos, Michelangelo Buonarroti (1475-1564), Museu do Louvre
Às vezes eu gosto de imaginar-me em galerias de arte. Assim que eu piso nesse tipo de instituição, é como se eu desse um passo rumo a um universo completamente novo. Nesse universo as imaginações de dezenas de artistas diferentes cruzam-se, dialogam e enriquecem-se mutuamente. De um lado está Rafael dizendo que a vida pode ser geometricamente planejada como A escola de Atenas, de outro Tintoretto dizendo que a vida pode ser tão dramática quanto a sua Última Ceia. Cada pintor, com sua maneira original de ver a vida, atesta um fato inegável: somos especiais, únicos, irrepetíveis.
As galerias desprendem milhões de dólares para adquirir os quadros mais belos, os mais raros, aqueles que mais profundamente tocam os espectadores. Não é à toa que a despeito da crise econômica global o mercado de arte continue aquecido como nunca. Dessa maneira os museus “brigam” de todas as formas para ter mais que variadas e muitas obras. Antes, brigam para ter as obras-primas, a suma nata artística da humanidade.
Mas será que poderíamos caracterizar uma verdadeira obra-prima? Na minha opinião, em termos bem práticos (deixando talento natural à parte), seria uma combinação de criatividade, técnica e bom senso (aqui exclui-se muitas obras modernistas). A criatividade é responsável pelo ineditismo da obra; a técnica, pelo valor intelectual e o bom senso é como um freio para dosar as duas primeiras caraterísticas e garantir a beleza universal da obra. Claro que essas características são baseadas apenas na minha observação, mas talvez possa fazer certo sentido.
O que chamo de beleza universal é aquela estranha sensação que as grandes obras transmitem segundo a qual o bonito não é relativo. Por exemplo, você pode não gostar do estilo, da técnica, do pintor, mas nunca poderá dizer que o Davi de Michelangelo é uma obra feia, desagradável, insignificante. É como se existisse consensualmente nessas obras uma espécie de selo similar ao título de Patrimônio da humanidade.
Como é gostoso sentar-se despretensiosamente diante de uma bela pintura e simplesmente admirar….naqueles momentos de meditação eu sou capaz de adquirir as mais diversas personalidades da história: sou o Santo Antão de Bosh com sua determinação em vencer as tentações, sou a corajosa Judite de Caravaggio ou ainda o José de Giotto com seu olhar paterno de A Fuga para o Egito.
De modo semelhante eu penso na Igreja como uma curadora de uma grande galeria de arte. Ela recebeu a missão do Estado (Deus) de reunir em suas galerias as melhores obras-primas da humanidade. Não estou falando da Capela Sistina ou da Basílica de São Pedro. As obras de arte que a Igreja reúne são feitas de homens e mulheres como eu e você. Obras que nos inspiram e nos fazem questionar com o coração cheio: “quem é esse pintor magnífico? Quem é esse gênio?” E temos vontade de conhecer tudo sobre ele. Viramos verdadeiros fãs.
Em suas galerias a Igreja só admite aquelas obras de reconhecida beleza e principalmente autenticamente pintadas por Um conhecido artista. Imaginem só como seria confusa e quão bagunçada seria uma tela pintada por várias mãos… Portanto na galeria da Igreja só entram obras assinadas. Sabe-se que algumas obras lá presentes tiveram que ser totalmente refeitas. Ou seja, o Grande Pintor tudo apagou e tudo refez na tentativa de fazer com que a obra fosse um modelo ótimo a ser reconhecido pela humanidade.
Deus como artista não se contenta com obras inacabadas. Michelangelo levaria uma bronca pelas estátuas do “Dia” e da “Noite” na capela Médici ou por seu Moisés em San Pietro in Vincole. Ele quer ter o prazer de trabalhar cada detalhe. Afinal, Suas obras são para toda a eternidade! Nesse contexto, a Igreja como curadora deve reunir um corpo especializado para fazer com que as obras sejam preservadas, mas sobretudo para garantir que os visitantes louvem a imagem do mais sublime dos artistas.
Por fim, eu diria que o que mais me fascina na arte é a capacidade criativa de cada artista. Eles nunca querem fazer uma obra igual a outra. Mais ainda, alguns artistas afeiçoam-se tanto à suas obras que chamam-nas filhos. Não é diferente nessa analogia Deus-artista-homem-obra. Deus nos ama e quer nos dar um lugar especial nas galerias da Sua Igreja. Porém, a pedra dura demais pode impedir a conclusão da obra. Cada obra-prima da galeria da Igreja deve nos animar a deixarmo-nos moldar constantemente. Deus nos livre de terminar a vida como uma Vitória de Samotrácia!


Museu de arte islâmica, Catar.


