”Os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz no trato com seus semelhantes”. (Lucas 16, 8 )
Este versículo conta a história de um administrador desonesto, sendo que ao final Jesus elogia a atitude deste administrador que, com sua esperteza enganou o patrão. Em algumas traduções pode ser lido mais “espertos”, mais “astutos”, no lugar de prudentes.
Pode-se pensar que Cristo elogiou a desonestidade do administrador, mas o fato é que Jesus quis nos dar uma lição: se a maldade impera em nosso mundo é porque muitos maus se esforçaram por isso. O que seria do mundo se imitássemos este esforço, este empenho dos maus, só que para o uso do bem? Portanto é o empenho, o esforço que Jesus elogia, não a maldade.
Lutero, a emblemática figura que causou uma enorme ferida na Igreja de Cristo, pode nos dar algumas dicas dessa esperteza que move a história. As grandes guinadas da história, para o bem ou para o mal foram dadas pelo esforço e pela astúcia de determinadas pessoas. Lutero, Hitler, João Paulo II, Francisco de Assis, Napoleão e outros assumiram o protagonismo de suas vidas (como bem lembram estas palestras de auto-ajuda por aí).
O objetivo é ignorar momentaneamente os erros do heresiarca e mostrar que algumas sacadas – outrora usadas em prol de um mal – hoje podem servir de inspiração para invertermos o propósito e dar um novo sentido a elas:
Bote a boca no trombone
A grande “sorte” de Lutero foi ter nascido no tempo certo. Em 1517, quando postou suas 95 teses na frente da Igreja de Wittemberg, Lutero talvez não tivesse noção de que seu palitinho de fósforo queimaria toda uma Amazônia. Nessa época a imprensa estava crescendo a passos largos, de modo que suas teses se espalharam rapidamente por toda a Alemanha e Europa. Assim, com a maior cara de pau e sem temer represálias, colou suas teses no lugar que poderia mais repercutir dado o tema da questão. Em outras palavras, Lutero pôs a boca no trombone e fez com que sua voz fosse ouvida ainda que muitos não quisessem. Aqui podemos perceber um ponto importante: Deus deu dons a todos. Muitos, por mais inteligentes, mais justos, mais santos, mais sábios que sejam, preferem esconder tais dons por medo de represálias ou mesmo por orgulho (o que vão pensar de mim?). Hoje em dia temos meios muito mais eficazes para incendiar não mais uma Amazônia, mas o mundo inteiro. Notavelmente: Twitter, Facebook, forums, grupos de discussão, e-mails, blogs, etc. Lutero, não quis saber se era bom teólogo ou não. Ele queria ser ouvido e foi. Quando é que vamos ouvir a tua voz?
Conheça seus ideais
Hoje tenho acompanhado e tenho certeza que os meus leitores protestantes também, a ascenção de muitos católicos de verdade. Explico, diferentes dos ditos católicos de IBGE, que só vão à Igreja em batizados e casamentos, surge a figura do católico autêntico, que frequenta a missa, sabe de cor os sete sacramentos e reza o terço vez ou outra. Porém, este tipo de católico, por mais coerente que seja, muitas vezes ainda se vê num mato sem cachorro. Ele é contra a camisinha? É sim, senhor! É a favor do celibato sacerdotal? É sim, senhor! É contra o aborto? É sim, senhor. Mas, quando questionado “por que?”, muitas vezes floreia, tergiversa (c0mo diz a Dilma), mas nunca chega a uma resposta objetiva. Lutero, com suas 95 teses sabia exatamente quais pontos defender. Tanto que ele não propôs 100 teses. Há aí especificidade. Seus seguidores, os protestantes, inclusive decoram versículos para melhor fundamentar seus raciocínios. Uma dica que dou é a de vestir-se de professor. Claro que não literalmente, o que quero dizer é para treinar antecipadamente o que poderiam te questionar. Um exercício bom é ir para frente do espelho e se perguntar: “Ei, você, por que você é contra o aborto”. Aí você para, pensa e responde: “eu sou contra o aborto por…por…”. Se der branco pense mais um pouco. Se o branco demorar mais de 5 minutos é porque você realmente está precisando dar um bom upgrade nessa máquina. E para ontem!
Seja pedagógico
Uma coisa que muitas vezes passa despercebida é que na época de Lutero muitos eram analfabetos. Se em vez de ter afixado as 95 teses ele tivesse escrito um pergaminho de 10 metros em forma dissertativa (e em latim!) poucos dariam atenção ao que aquele monge rabugento (já viram seu rosto nas pinturas?) pretendia dizer. Gente! Lutero inventou o Twitter em 1517! Ele resumiu seu pensamento em 95 tweets de menos de 145 caracteres…haha. Brincadeiras à parte, o formato de teses em pequenos versos de duas linhas cada, facilitava a divulgação das ideias. Se alguém perguntasse o que estava escrito, bastava que um leitor bem en passant lesse uma das teses e rapidamente desse uma resposta. O mesmo provavelmente não ocorreria se fosse um texto longo e cansativo. Outra sacada de Lutero (pela qual ele não foi diretamente condenado na Bula Papal), foi ter traduzido as escrituras para o alemão. Deixando de lado as amputações do texto que mais tarde se verificariam, é interessante notar o caráter pedagógico e pastoral deste ato. Tanto que, apesar de o latim ter sido tão popular quanto o inglês hoje em dia, o vernáculo desperta sempre sentimentos mais familiares, próximos, populares. E isso garantiu a ideia de insujeição, insubordinação, insurreição da Reforma, pois a interpretação agora não dependia mais do latim e dos padres. Convenhamos, para os propósitos levantados, foi um verdadeiro sucesso.
Não abra mão da Verdade
Quando o papa Bento XVI visitou Ertfurt nesse ano, muitos achavam que ele eximira Lutero de seus erros ao dizer que sua “luta [era] a propósito de Deus e com Deus”. Mas Bento XVI, sábio teólogo, só afirmou a verdade. Dentro de sua concepção de mundo, Lutero buscava o que achava ser a verdade. Tanto que seus atos radicais, insubmissos, inflexíveis demonstram uma coisa apenas: ele acreditava no que pregava. Sim, houve orgulho em diversos atos do ex-monge agostiniano, como no episódio da queima pública da bula. No entanto, antes de redimir Lutero de seus erros, nós católicos, como o fez Bento XVI, prestaríamos um grande serviço se passássemos a julgar atos e não pessoas. Não sabendo o grau de ignorância de Lutero, só podemos presumir que, na sua mente ele realmente estava lutando “a propósito de Deus e com Deus”, ainda que não estivesse. E isso pode e deve nos inspirar. Nossa crença deve nos levar a dar o sangue como o fizeram tantas Cecílias, Inês e Águedas da vida. Ainda que não cheguemos a esse ponto, há sempre o lembrete bíblico “Oxalá fosses frio ou quente, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca.”











